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Stela do Patrocínio

 

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Em 2001, a Azougue Editorial lançou o livro “Reino dos bichos e dos animais é o meu nome”, da Stela do Patrocínio (1941-1992). Organizado por Viviane Mosé, o livro trazia as falas versificadas de Stela, coletadas a partir de fitas gravadas por Neli Gutzmacher e Carla Guagliardi na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, onde Stela era interna. O livro foi um grande sucesso, tendo sido adaptado para curta-metragem, peça teatral, performance e disco.

No ENEM-2018, um poema de Stela foi tema de uma das questões. O ENEM deste ano primou por trazer grandes autores da literatura contemporânea, como Torquato Neto, Leonardo Fróes, Cuti e Angélica Freitas. A inclusão de Stela neste rol muito nos alegra.

Também em 2018, Stela foi uma das homenageadas, ao lado de Hilda Hilst, da antologia de poesia brasileira contemporânea da revista Palavbras Andantes. Nela, alguns dos seus poemas foram traduzidos para o espanhol por Jerónimo Pizzarro, considerado um dos maiores conhecedores vivos de Fernando Pessoa, e Andrea Sanchez Valencia.

Como homenagem, reproduzimos abaixo três poemas de Stela em versão bilíngue, incluso o que saiu no ENEM:

Eu sobrevivi do nada, do nada
Eu não existia
Não tinha uma existência
Não tinha uma matéria
Comecei a existir com quinhentos milhões
E quinhentos mil anos
Logo de uma vez, já velha
Eu não nasci criança, nasci já velha
Depois é que eu virei criança
E agora continuei velha
Me transformei novamente numa velha
Voltei ao que eu era, uma velha

Yo sobreviví de la nada, de la nada
Yo no existía
No tenía una existencia
No tenía una materia
Comencé a existir con quinientos millones
Y quinientos mil años
Así, de una vez, ya vieja
Yo no nací niña, nací ya vieja
Después fue que me volví niña
Y ahora continué vieja
Me transformé nuevamente en una vieja
Volví a lo que era, una vieja

*

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu era ar, espaço vazio, tempo
E gases puro, assim, ó, espaço vazio, ó
Eu não tinha formação
Não tinha formatura
Não tinha onde fazer cabeça
Fazer braço, fazer corpo
Fazer orelha, fazer nariz
Fazer céu da boca, fazer falatório
Fazer músculo, fazer dente

Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas
Fazer cabeça, pensar em alguma coisa
Ser útil, inteligente, ser raciocínio
Não tinha onde tirar nada disso
Eu era espaço vazio puro

Yo era puramente gases, aire, espacio vacío, tiempo
Yo era aire, espacio vacío, tiempo
Y puramente gases, así, oh, espacio vacío, oh
Yo no tenía formación
No tenía titulación
No tenía dónde hacer cabeza
Hacer brazo, hacer cuerpo
Hacer oreja, hacer nariz
Hacer paladar, hacer murmullo
Hacer músculo, hacer diente

Yo no tenía dónde hacer nada de eso
Sentar cabeza, pensar en algo
Ser útil, inteligente, ser raciocinio
No tenía de dónde sacar nada de eso
Yo era espacio vacío y puro

*

É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas também você não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também vai poder ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo

Está dicho: por el suelo no te puedes quedar
Porque el lugar de la cabeza es en la cabeza
El lugar del cuerpo es en el cuerpo
Por las paredes tampoco puedes
Por las camas tampoco te vas a poder quedar
Por el espacio vacío tampoco te vas a poder quedar
Porque el lugar de la cabeza es en la cabeza
Y el lugar del cuerpo es en el cuerpo

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