Revistas de Invenção no Brasil

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Por Sergio Cohn

Em 2011, publiquei um livro sobre revistas de invenção, fruto de uma extensa pesquisa e aquisição de acervo. O livro fazia parte de um projeto maior, de fomento a revistas de cultura no Brasil, realizado em 2009 e 2010 pelo Programa Cultura e Pensamento do Ministério da Cultura, com coordenação de Afonso Luz, e infelizmente descontinuado em 2011, com a mudança de governo.

A proposta do livro era trazer um pouco da memória dos periódicos de cultura e também fomentar debates e qualificar projetos futuros. Para isso, apresentamos algumas das principais revistas de cultura que surgiram no país a partir do modernismo e discutimos a relação delas com o seu tempo e com as inovações de linguagem. Como forma de organização, dividi o livro em seis seções, que buscavam demonstrar como as revistas dialogavam e eram agentes de tendências culturais maiores vigentes no seu momento histórico: modernidade (1922-1930), reflexão (1930-1950), invenção (1950), alternativa (1960-1970), independente (1980-1990) e digital (2000).

Exatamente pelo diálogo aberto e pela permeabilidade com as tendências e possibilidades do seu tempo, as revistas são espaços privilegiados de publicação de obras literárias, ensaios, manifestos e proposições fundamentais para a atualização e o desenvolvimento da cultura. É importante notar que no Brasil isso não acontece só a partir do modernismo. Como exemplo, o texto pioneiro do nosso romantismo, “Ensaio sobre a história da literatura brasileira”, de Gonçalves Magalhães, foi editado na revista Nitheroy, em 1836. E desde a virada para o século XX as revistas estavam ganhando força como fomentadoras e difusoras de cultura. Um caso exemplar é a Revista do Brasil editada por Julio Mesquita e Monteiro Lobato.

Este papel fundamental das revistas no debate cultural é permanente, e precisa ser valorizado e incentivado. Para dar exemplos rápidos, textos fundamentais do pensamento cultural no Brasil foram publicados originalmente em revistas. É o caso de “Manifesto Antropófago”, do Oswald de Andrade (Revista de Antropofagia), “Cinema: trajetória do subdesenvolvimento”, de Paulo Emílio Sales Gomes (Revista Argumento), “Estética da Fome”, do Glauber Rocha (Revista Civilização Brasileira), “Experimentar o experimental”, do Hélio Oiticica (Revista Navilouca) e tantos outros.

O livro, “Revistas de Invenção – 100 revistas de cultura do modernismo ao século XXI”, está fora de catálogo. Dificilmente haverá uma nova edição nos próximos tempos, por ser um livro caro de impressão e pela crise que estamos vivendo no mercado editorial. Por isso, usaremos esse espaço da plataforma Revistas de Cultura para, entre outras coisas, disponibilizar o conteúdo do livro, de forma ampliada: reproduzindo páginas e documentos, disponibilizando entrevistas inéditas, apresentando outras revistas que ficaram de fora do mapeamento original e abrindo espaço para depoimentos e debates. As postagens seguiram a organização original do livro, dividindo por período original de publicação. Para quem quiser acompanhar as postagens, é só entrar na tag Revistas de Invenção. Boa viagem.

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