Revistas de Invenção – Modernismo (1922-1930)

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“Vivemos uns oito anos, até perto de 1930, na maior orgia intelectual que a história artística do país registra”. Assim Mário de Andrade relembra o período que começou em 1922, com a Semana de Arte Moderna, e seguiu até o fim da década. Ocorrida entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, nas comemorações do Centenário da Independência, a Semana se tornou um marco do modernismo brasileiro, condensando muitas questões e personalidades que iriam identificá-lo.

Naquele mesmo ano, surge a primeira das revistas modernistas, Klaxon. Com edição coletiva, incluindo nomes como Oswald e Mário de Andrade, Guilherme de Almeida e Sérgio Milliet, Klaxon trazia em suas páginas o espírito combativo da Semana de Arte Moderna, utilizando linguagem irônica e inovações gráficas (até nas propagandas, com a famosa “coma lacta” criada por Guilherme de Almeida) e abrindo caminho para uma série de outras revistas, que possibilitaram o aprofundamento e a consolidação das posturas modernistas no Brasil. O nome da revista foi retirado de uma marca de buzinas. No editorial do primeiro número, uma resposta em tom de blague a todos que insistiam em filiar o movimento paulista à escola de Marinetti: “KLAXON não é futurista. KLAXON é klaxista.”

Na esteira de Klaxon vieram periódicos como Estética (surgida em 1924, editada no Rio de Janeiro por Sérgio Buarque de Holanda e Prudente de Moraes Neto), A Revista (editada em Minas Gerais por Carlos Drummond de Andrade e Francisco Martins de Almeida, em 1925), Terra Roxa (criada no Rio de Janeiro em 1926, editada por A. C. Couto de Barros e Antonio de Alcântara Machado), Verde (criada em Cataguases-MG, em 1927, e editada por Rosário Fusco e Ascânio Lopes), Festa (criada no Rio de Janeiro por Andrade Murici e Tasso da Silveira, em 1927), Arco & Flexa (criada na Bahia em 1928, por Carlos Chiachio) e outras, que divulgavam em suas páginas poemas, ensaios e manifestos. Essas publicações foram o palco principal para os debates e embates estéticos e ideológicos da época.

É importante lembrar que, se a primeira manifestação pública do modernismo ocorreu em 1917, com a exposição da pintura de Anita Malfatti, numa galeria da rua Libero Badaró, onde causou escândalo expondo obras influenciadas pela pintura moderna que havia visto na Europa e nos EUA (controvérsia esta expressa exemplarmente no virulento texto de Monteiro Lobato, “Paranoia ou mistificação?”), a literatura moderna só iria aparecer na década de 1920, com obras como Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade (1922), João Miramar, de Oswald de Andrade (1925), Martim Cererê, de Cassiano Ricardo (1928) e Cobra Norato, de Raul Bopp (1931), entre outros. Ou seja, em paralelo com as ideias que apareciam nas revistas literárias da época, e inteiramente informadas por elas.

O modernismo brasileiro não foi um movimento unívoco, e sim com diferentes posturas internas. O conflito mais intenso foi entre o grupo nacionalista, centrado em Plínio Salgado (que depois se tornaria uma liderança do movimento integralista), Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo, que constituiriam o movimento Verde-amarelo e o grupo Anta, e o grupo internacionalista centrado na Revista de Antropofagia, criada em 1928 por Oswald de Andrade, Antônio de Alcântara Machado e Raul Bopp. A polêmica entre o modernismo nacionalista e as vertentes mais abertas repercutiria outras revistas, como na revista Festa.

A década de 1920 foi um período marcado por uma grande riqueza estética e conceitual, o que está expresso nas suas revistas, que valem não apenas como documentos de época, mas em alguns casos como verdadeiras obras de arte. Folheá-las é, até hoje, uma experiência mista de prazer e espanto.

ANTA E CARRAPATO

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