Revistas de Invenção – Estética

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A revista Estética, publicada no Rio de Janeiro entre 1924 e 1925 e dirigida por Prudente de Moraes Neto e Sérgio Buarque de Holanda, contou com a colaboração de alguns membros da revista Klaxon, mas, se manteve o seu tom combativo em nome do modernismo, trocou a irreverência por um tom mais reflexivo. Em seus três números, foram publicados quase todos os grandes modernistas: Mário de Andrade (que no terceiro número publicaria o seu “Noturno de Belo Horizonte”), Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Carlos Drummond de Andrade, Sergio Milliet, Ronald de Carvalho, Menotti del Picchia… A revista durou apenas três números, encerrando sua atividade por falta de recursos financeiros. Ao fazer isso, deixou inédito material já reunido para o seu quarto número, com textos de Oswald de Andrade e Alcântara Machado.

Em 1925, o Correio da Manhã transcreveu trechos de uma palestra de Sérgio Buarque de Holanda e Prudente de Moraes Neto sobre a revista Estética e o Modernismo. Nela, Sérgio Buarque declara, contundente: “Não é o simples capricho de acompanhar a última moda literária, vinda de fora, que nos leva a participar de um movimento de renovação artística. Penso ao contrário: se a tendência ‘modernista’ pode oferecer o aspecto de um rompimento com a continuidade de nossa tradição, é exatamente porque julga que essa tradição quase nunca refletiu o sentido de nacionalidade”.

Pedro Dantas, que fazia parte da equipe editorial da revista, relembra situações inusitadas em torno da publicação. Uma realmente é digna de nota: “Nas páginas reservadas à sua autopromoção, a revista anunciou, entre as colaborações prometidas ou em preparo ‘na redação’, um estudo de Sérgio Buarque de Holanda sobre James Joyce. A propósito, certo leitor escreveu à Estética uma carta provocadora. Não pensasse a turma da revista que detinha o privilégio do conhecimento de um escritor como Joyce. Pelo contrário, a ninguém, ali, reconhecia a capacidade para tratar do Ulysses e seu autor. Só uma pessoa, no Brasil, poderia fazê-lo com autoridade: um escritor pernambucano, que a Estética, por certo não, conhecia – Gilberto Freyre – de quem, para ilustração, se juntava um artigo publicado no Recife, sobre o escritor proibido. Salvo engano, a carta era assinada por um nome desconhecido: José Lins do Rego (sem que hoje me seja possível jurar por essa atribuição). José Lins do Rego – veio-se a saber – era um rapaz nordestino que andava muito em companhia de Lívio Xavier, de Antonio Bento, de Mário Pedrosa. Sergio Buarque de Holanda propôs fossem os dois documentos (carta e artigo) publicados, na Seção de Transcrições, que a revista se empenhava em manter. Seria uma contribuição para o nosso nº 4. Informado na Garnier, pela decisão tomada, Graça Aranha mostrou-se interessado pelo assunto; ao ver a carta e o artigo, protestou com veemência: – Não pode ser! Vocês não podem transcrever este escrito. Esse rapaz é nosso inimigo: ficou com o Oliveira Lima, contra o Nabuco!”

É um relato que condiz com a declaração de Prudente de Moraes, na mesma palestra de 1925, quando fala sobre a pluralidade do modernismo: “Uma das críticas mais absurdas que nos tem sido feitas é a de unidade de vistas, de regras, e de nos censurar por falta de coesão, de um fim comum que se possa reconhecer imediatamente. Querem que o modernismo seja uma escola quando é um estado de espírito…”

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