Entrevista com Braulio Tavares e Fausto Fawcett

 

2011. Número único da revista Pensamento Brasileiro, editada pela Azougue. Decidimos, ao invés de realizar uma entrevista, criar uma seção na revista chamada “Sinapse”, onde convidaríamos duas pessoas, convergentes ou antagônicas, para falar sobre um tema. A ideia era fugir do personalismo da entrevista para o diálogo, o encontro. Para estrear a “Sinapse”, fomos conversar com Braulio Tavares e Fausto Fawcett, com a Larissa Ribeiro realizando as fotografias. Foi a primeira vez que eles conversaram pessoalmente, embora tantos temas tivessem em comum – a começar pela ficção científica, tema escolhido para o diálogo. A conversa foi deliciosa, e seguiu cerveja adentro depois que se desligaram os gravadores.

[Sergio Cohn] Atualmente está se vivendo, nas mídias todas, uma volta do realismo. Do Big Brother ao documentário, várias mídias trabalham sobre o conceito de “baseado em uma história real”. Como fica a ficção nisso?

[Braulio] Acho que o que existe na verdade é uma fabricação de fatos artificiais. Esses reality shows não são mais do que isso. É real porque, claro, você está trancafiando as pessoas e mostrando o que acontece lá dentro. Isso, evidentemente, é real, mas é um real manipulado. Tão manipulado, na minha opinião, quanto uma novela, um romance ou um filme.

[Fausto] Vira uma novela, na verdade.

[Braulio] Vira uma novela, porque alguém está roteirizando aquilo. Então se você está vendo, por exemplo, um Big Brother e, numa certa noite, está todo mundo vestido de turbante, árabes, odaliscas e tudo mais, não foram eles que escolheram. Aquilo ali é uma festa produzida pelo roteirista, pela direção do programa.

[Fausto] As pessoas esquecem que existe um roteirista por trás. E isso é um dado muito importante. O conceito da sociedade do espetáculo, do nosso Guy Debord, fará cinquenta anos e esta cada vez mais atual. Porque estamos completamente imersos em fabricações de shows de realidade patrocinada. Os jornalistas, por mais que eles tenham uma boa intenção, já estão imersos nisso também, já fazem parte de um show.

[Braulio] Eles manipulam também.

[Fausto] Manipulam, e a coisa mesmo espetacular, que é a imagem de TV. Mesmo quando é A bruxa de Blair ou Big Brother, a sede de realismo passa rapidinho. Ela é suplantada logo por um tédio e um costume, você se habitua àquele negócio e fica sabendo que é roteirizado. Me lembrei de uma brincadeira do começo dos anos 1980, quando vários cineastas advindos da publicidade estavam caprichando nos cenários artificiais. Até o Coppola, que fez aquele filme com a Nastassja Kinski saindo de uma taça, One from the heart. Tinha um cineasta francês que fez A lua na sarjeta, Jean-Jacques Beineix. Bom, estou me lembrando disso porque nessa época apareceu uma comparação dizendo que houve um neorrealismo e eles estavam fazendo um neon realismo… As pessoas, dentro das grandes cidades, já estão acostumadas, nem se tocam, mas já está inserida no cotidiano deles esta imersão em imagens artificiais. Quando você diz que o realismo está voltando é como se fôssemos ter uma surpresa agora. As pessoas estão anestesiadas, estão habituadas. Então o que é um realismo hoje em dia?

[Sergio] Vocês acham que a gente está consciente demais das engrenagens do realismo?

[Braulio] O espaço do acaso está diminuindo no mundo. Tudo tem que ser previsto, numa lógica mecanicista lucrativa, ou pelo menos uma lógica de espetáculo, estética, um final previsto que tem que ser moldado, e o acaso não pode interferir nisso. Eu gosto do acaso porque ele é como uma bigorna do desenho animado que cai na sua cabeça.

[Sergio] Os estudiosos tentavam utilizar o conhecimento para pensar a tecnologia através da ficção científica, como está isso agora com a internet? A FC se tornou mais realista em termos de tecnologia?

[Braulio] Não acho que a internet tenha influenciado muito isso, não. A internet influencia na circulação dos livros, na criação de sites, na circulação dos textos, mas não acho que tenha influenciado tanto assim na literatura em si. Existe uma linha forte na ficção científica de hoje que é o que chamam de transhumanismo. A vida pós-biológica. Como é que você pode daqui a alguns anos ter uma maneira de fazer o upload de toda a minha memória biológica para um computador qualquer, por exemplo.

[Fausto] Esse transhumanismo está em voga e não é só de agora. Os futuristas tinham isso. Mas hoje você poder superar as limitações corporais, porque digamos que o corpo está obsoleto. Há próteses… O que é interessante nisso é que quando o cara fala em transhumano ele não se refere ao sistema nervoso central, o cérebro não é uma víscera.

[Braulio] Ou um computador de carne.

[Fausto] Ou um nhoque algoritmo. Nos últimos anos teve o projeto genoma, alguns passos da ciência foram dados para tentar uma mapeada definitiva. No fundo a gente continua com aquela ideia de Fausto, de Goethe, que é querer transcender. É a tara pela transcendência.

[Braulio] Além dessa coisa que você sabe que vai morrer de uma hora pra outra. O Greg Egan, um escritor australiano de quem gosto muito, escreveu uma série de contos sobre um artefato implantado na cabeça da criança quando ela nasce, chamado de joia, como se fosse um chip com uma capacidade enorme de informação. E tudo aquilo é ligado aos neurônios, então tudo que aquela criança está pensando, está passando pela joia. Um cérebro auxiliar artificial. E a criança vai crescendo. Quando chega à fase adulta ele ganha uma espécie de independência: eles abrem o crânio, tiram o cérebro de carne e deixam somente a joia lá dentro. E o narrador do conto que deu origem à série diz, que os mais velhos perguntavam se ele não tinha medo de destruir seu cérebro e ficar só com a cópia. E ele dizia que não, porque desde pequeno, quando lhe explicaram o que era a vida, ele se considerava o artefato. Aquele negócio de carne em volta é como se fosse um apêndice, você tira e continua vivendo normalmente. Então o eu não era aquele cérebro que podia adoecer, pegar um tumor, ter um AVC, mas a joia é inquebrável. Porque se de uma hora para outra eu tivesse um acidente com o meu corpo, era só pegar aquilo e botar num outro corpo e eu acordava de novo. É um conceito de eu diferente, porque a gente está acostumado a identificar o eu com o corpo. Então existe essa possibilidade, e mesmo que ela não seja científica, o simples fato de ela ser uma possibilidade literária e filosófica diz muito sobre quem nós somos ou gostaríamos de ser.

[Fausto] Acho que o grande barato da ficção científica, independente da internet, é que outra vida poderia vir, por caminho genético ou outro. Isso pra mim sempre foi o grande barato, o salto filosófico, que em outras ficções você não achava, porque elas ficavam só no campo das ideias. Acho que isso está até na história em quadrinhos, qualquer super-herói vira outra coisa, a fascinação de ser mais do que é. É como o super-homem do Nietzsche e o Super-Homem super-herói mesmo. Os dois em embate. Um vai por valores, sentimentos, para superar as fraquezas, e o outro já é pela mudança fisiológica mesmo.

[Sergio] Essa questão é interessante, porque ela passa pelo nosso conceito de identidade, inclusive na cultura. É como se perguntasse se somos a pureza de um corpo ou a soma de arranjos, experiências, criações, situações, encontros?

[Fausto] Queria te fazer uma pergunta, Braulio. Sempre reparei que a ficção científica está ligada a catástrofes. A partir da internet, com a banalização (no bom sentido) da informação, com a democratização mercadológica, o transhumanismo está começando a pipocar. Como a imaginação dos escritores vai lidar com isso, tem surpresa ainda?

[Braulio] Acho que a ficção científica virou um agregado de subgêneros, ela foi crescendo muito rapidamente em direções diferentes. Você fala em catástrofe, mas por quê? A ficção científica europeia e norte-americana é popular, não é coisa de intelectual. Ela chegou depois aos intelectuais. Então ela nasceu como forma de melodrama. E no melodrama você nunca fala de sentimentos modestos, e sim de sentimentos gigantescos, exacerbados. Então é engraçado pegar uma capa de revista de ficção científica, um cartaz de filme, e tem assim: “Eles estão tentando salvar o universo”. Não é o planeta Terra, o sistema solar, é todo o universo. É muita ambição gigantesca para o ser humano! Mas é isso. É um pouco a mentalidade adolescente de quem está descobrindo seus superpoderes imaginativos. Sempre que pego um livro de mitologia grega penso que aquilo é a ficção científica da época, tinha Hércules, Perseu e hoje é Wolverine, é Batman. Os heróis ganham a fisionomia do mundo para que o leitor se sinta refletido neles. O Homem-Aranha ficou daquele jeito porque foi picado por uma aranha radioativa. Só de ser radioativa o cara já sente que é do mundo de hoje. Isso é uma coisa legal porque você vê que há uma substituição de mitologia pelo tecnológico, porque o mundo é tecnológico. Você está mexendo nos nervos, na genética, no hardware do ser humano. Mas por outro lado tem a ficção científica utópica. Aquele negócio: vamos inventar a sociedade ideal. E é impossível. E as utopias da FC são sempre uma sociedade presa, fechada, que não admite o acaso, não admite o erro, mas sempre tem um transgressor lá dentro.

[Fausto] O mundo já foi totalmente religioso, depois foi muito humanista, e agora é como se estivesse tecnocêntrico. Essas três coisas ficam dentro da gente. A ficção científica tem o papel de cutucar a transcendência. Mas a gente não pode deixar de pensar que todo Jetson tem dentro de si um Flintstone. Vimos hoje com esse episódio [se referindo ao rapaz que assassinou alunos em uma escola em Realengo, no Rio de Janeiro] que ainda somos aqueles primatas. Quem explica essa maluquice que o garoto fez hoje? Dostoiévski, Kafka, esses escritores que foram fundo nessas questões, e em todos os tempos as questões que nos angustiam são mais ou menos as mesmas.

[Braulio] O Flintstone é o mesmo.

[Fausto] E o “eu” também. Euzinho, Eguinho e Myselfzinho, os sobrinhos do Patológico.

[Braulio] A questão é botar ordem no caos, porque o mundo é o caos. Pergunte a um recém-nascido o que ele acha do mundo. É o caos, aí ele vai aprendendo quem é papai, mamãe, o leite, é tudo narrativa. Tem aquele negócio redondo e o pai diz: chuta. É uma narrativa que o pai vai ensinar, que se chama futebol. Tem uma descrição que acho muito bonita. Tenho amigos que gostam de velejar, vão daqui para a Europa! Pergunto como eles lidam com ondas de 10 metros de altura. Aí eles filosofam, dizem que o mar é a metáfora da vida. Dizem: você controla o mundo? O Rio de Janeiro está se movimentando, um bueiro de Copacabana pode estourar do seu lado. Como você se relaciona com o mar? Não é querendo mandar nele. É observando, conhecendo e negociando com ele. A única maneira de se relacionar com o mar é a mesma de se relacionar com o mundo. É criando o seu roteiro. Você tem que negociar um trajeto no meio desse caos de um jeito que você não desperdice sua vida, se escondendo dela, mas também que não perca ela ao se expor demais. A narrativa para mim é isso. De fato, nossa vida é roteirizada. Então a onda é organizar uma coisa que é caótica e, quando está tudo organizado, abrir uma janela para deixar um pouco de caos entrar. O acaso entrar. Se permitir fazer coisas diferentes.

[Sergio] Aliás, quais são os planos para agora?

[Braulio] Tenho trabalhado ultimamente com traduções. É uma forma de prostituição onde eu escolho os clientes. Até o fim do ano, lanço uma coletânea de contos meus e duas antologias temáticas de contos fantásticos.

[Fausto] A Martins Fontes lançará minha obra, com um inédito, Favelost. Tem um outro livro que se chama Pororoca rave, que não sei ainda por onde vai ser lançado. Tem um seriado, na segunda temporada no Canal Brasil, que se chama Vampiro carioca, onde escrevo e atuo.

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