ENTREVISTA COM TONINHO MENDES

Toninho, como começou sua relação com a cultura?

Começou na infância. Eu gostava de desenhar e colecionava gibis obsessivamente. Aquela era a grande época do gibis de banca: O Fantasma,  O Cavalheiro Negro, Batman. Eu me mudei pra São Paulo em 1959, com cinco anos de idade. Eu digo para as pessoas que eu não mudei para São Paulo, mas para o bairro da Casa Verde. Porque São Paulo são muitas cidades. Se tivesse mudado para a Mooca, por exemplo, eu teria me tornado outro ser humano. Eu mudei para a Casa Verde, para as margens do rio Tietê. O meu pai veio pra São Paulo pra comprar um caminhão e comprou um bar. A minha casa era interligada com ele, então eu fui criado dentro de um bar. A minha família era de classe média baixa, e rapidamente eu descobri que não teria dinheiro para comprar todos os gibis que satisfariam a minha vontade. Naquela época, se vendia gibi na feira livre, e eu comecei a ajudar o dono da banca a arrumar a banca. Eu ia lá antes da escola, às seis da manhã, e ajudava ele com as caixas… 

Como começou o seu trabalho com diagramação de jornais e revistas? 

Na adolescência, eu virei office-boy, e um dia andando na rua vi o Pasquim na banca. Aquilo foi uma iluminação. Eu já era amigo do Angeli, que também morava na Casa Verde e era apenas um ano mais novo. Eu sou o filho do motorista e ele o filho do funileiro. Nós tivemos uma afinidade imediata. E, como eu gostava muito de quadrinhos, decidi que queria ser desenhista. Então fui estudar desenho publicitário, e para me sustentar, um professor que foi com a minha cara me botou para diagramar as apostilas da escola. Foi assim que eu aprendi a fazer paste-up, que era a técnica de diagramação da época, o recorta-e-cola. Com uns cinco meses de curso eu descubro que todas as pessoas desenham melhor que eu. Só que, ao mesmo tempo, percebi que nenhuma delas pensava tão bem quanto eu. Eu sabia escrever e organizar os layouts melhor. E tomei gosto pela coisa. Um dia, vi um anúncio no jornal de uma editora que precisava de paste-up. Era a Editora Perspectiva. Eu fui contratado, com um salário bom. Tinha uns 16 anos e ganhava em torno de cinco salários mínimos. Na época, eles tinham um catálogo de peso, com coleções como a Debates e a Estudos, e eu acessei um mundo que eu não entendia. 

Quando aconteceu a sua aproximação com o jornal Versus, do Marcos Faerman?

Como eu sou louco, casei aos 19 anos e tive uma filha aos 20, a Papoula. E já estava mexendo com imprensa, havia passado por um estágio na Folha de São Paulo e estava ligado no que estava acontecendo politicamente. Eu tinha um amigo na Folha chamado Joca Pereira, e ele me disse que ia sair um jornal independente do Marcos Faerman. Eu sabia quem ele era, admirava seu trabalho. Então o Joca Pereira me convidou pra ir na casa do Faerman. Eu estava meio desempregado e já trabalhava no jornal Movimento, que era uma dissidência do jornal Opinião comandada pelo Raimundo Pereira. Eu era um jovem porra-louca, drogado, que estava curtindo todas, e fui parar dentro de um jornal que era comunista, vigiado na porta pela censura. Lá eu conheci o Paulo e o Chico Caruso, toda a turma que estava começando a desenhar história em quadrinhos. Mas o Movimento era um jornal com cabeça de comunista, e não conseguia levar a gente a sério. Quando comecei a trabalhar no Versus, a coisa mudou. O Faerman foi com a minha cara e começou a me ajudar. Eu fui o primeiro a receber salário lá. O Versus foi o jornal onde eu cresci como profissional, e de onde começa o meu trabalho que viraria a Circo Editorial. Estava todo mundo lá: Angeli, Laerte, Luiz Gê… 

É verdade que vocês lançaram a Circo Editorial no dia da votação das eleições diretas? 

Sim. A gente fez de propósito. Escolhi o dia, a data e a hora. Mas antes da Circo eu fiz outra editora, a Marco Zero, nome tirado do Oswald de Andrade. Eu fiz ela em parceria com o Rui Campos, da Livraria Muro, que atualmente é dono da Livraria Travessa. Editamos só dois ou três livros; o meu de poesias sobre o rio Tietê e um de quadrinhos do Chico Caruso, o “Natureza Morta”. Eu fiz essa editora influenciado pela editora Codecri, da turma do Pasquim. Eles tinham me ensinado que era possível fazer uma editora diferenciada. A Marco Zero não foi para a frente, mas eu continuei pensando em ter uma editora. A Circo nasceu de uma noite de cocaína. Eu estava com um amigo em casa, bebendo vinho e cheirando, e falei para ele que tinha um material ótimo de quadrinhos, coisas do Angeli, do Laerte e do Chico Caruso, mas que não tinha dinheiro para abrir uma editora. E ele disse que conseguiria o dinheiro. Ele tinha negócios de família, e combinou que virava meu sócio e cuidava da parte econômica. Eu ficava com a parte editorial. Eu abro a editora, com meu endereço, na minha casa e começo a fazer o livro do Angeli, o clássico Bob Cuspe, e outro livro do Chico Caruso. O Caio Graco, da editora Brasiliense, disse que distribuiria os livros para mim. Só que, passados uns quatro meses, a família do meu sócio se desentende, eles se separam e eu me vejo sozinho com os livros prontos na mão para serem impressos. Naquela hora eu quase desisti, mas a Circo é uma coisa mágica. Eu estava lá, sem perspectiva, e fui desabafar com o Chico Caruso. Ele me perguntou quanto custava para imprimir os livros, e disse que estava fechando um negócio, que se saísse ele pagava as impressões para a minha editora existir. E poucos dias depois ele sai do Jornal do Brasil e é contratado pelo Roberto Marinho recebendo dez vezes mais. Ele ligou e falou para eu fazer os dois livros. A Circo foi assim do início ao fim. Na base da magia e muito trabalho, porque não adianta ter a magia, ter o campo, ter estádio, ter a torcida e não ter time. E time a gente tinha de sobra, só craques… O lançamento da editora foi sim no dia 30 de abril de 1984, que era o dia do meu aniversário e também da votação das eleições diretas. 

Como foi o salto de editora de livros para editora de revistas?

Os livros fizeram sucesso, foram pra segunda, terceira, quarta edição. Só que isso não sustenta uma empresa, não sustenta uma família. Então eu criei um estúdio de design, e dividia a mesma casa de trabalho com o Angeli. Continuava vivendo de trabalhos para terceiros, mas louco para fazer da editora uma coisa viável. E, como eu disse, a Circo foi uma coisa mágica. Um homem fez uma editora que chegou a vender 120 mil revistas de quadrinhos por mês sem nenhum centavo no bolso. E, o que é bem compreensível, saiu sem nenhum centavo do bolso também. O que aconteceu é que um dia um amigo, que havia trabalhado comigo na Versus, o Arlindo, me chamou para participar da equipe de uma revista de moda que ele havia aberto. Um dia, ele me chamou e disse que precisava de outros produtos para colocar na banca, e falou para eu apresentar alguma proposta para ele. Eu levei dois projetos: uma revista só do Angeli, com todos os seus personagens, Bob Cuspe, Rê Bordosa, que se chamava Chiclete com Banana, e outra chamada Circo, com todos os outros desenhistas que andavam com a gente. O Arlindo escolheu a Chiclete com Banana, e começamos a fazer a revista. A gente está falando de 1985. O Tancredo Neves tinha conseguido morrer antes de assumir, era aquele peso todo. E sai a Chiclete com Banana, com “Bob Cuspe para prefeito” na capa. Foi um escracho total. Nós vendemos a tiragem inteira, faltou revistas. No segundo número, tiragem maior, falta revistas. A revista indo bem, o Arlindo, nosso chefe, cuidando do dinheiro, eu fazendo o que eu queria, que era arte, o Angeli só desenhando. Todo mundo ganhava dinheiro suficiente. Mas um dia o Arlindo me chama, e diz que não dá para continuar publicando a revista. Ele era um comunista literal, e estava muito incomodado com a repercussão da revista. Mas, como a Circo era mágica, ele disse que queria passar o negócio para nós, e que daria um ano de investimento para fazermos a coisa ficar de pé. 

E como a revista se sustentava? Ela conseguia anúncio com todas essas polêmicas?

Não. A Circo Editorial nunca deu dinheiro. Serviu para nos sustentar razoavelmente na época do auge. Nessa época do auge o Angeli continuava na Folha, eu continuava diagramando livros para outras editoras, cada um tinha o seu trabalho. A gente só fazia o que a gente queria porque a gente pagava pra fazer. A gente se pagava. Ninguém ia pagar para a gente fazer aquilo. Esse foi o preço que nós pagamos para entrar na história. Era de puro tesão, entendeu? E é claro que não tinha como sobreviver para sempre. 

Qual é a política cultural ideal, o que que precisa ser feito para se reverter esse quadro e possibilitar a independência? 

A política cultural ideal começa no prato. Porque cultura é tudo. E o fator mais determinante da cultura é a alimentação. Foi assim que a cultura passou na civilização: foi pelo prato, pela boca, pelo garfo, como matar o boi, como tira o rabo. Para mim a cultura começa pela boca. É uma coisa categórica, clássica! A cultura nasce pela boca e pela comida. As pessoas conseguiram sair das árvores, ficar em pé, de pau duro, botar roupinha, fazer filho, foram pra dentro de uma casa. Qual a primeira coisa que eles tem que fazer? Comida. Aí nasce a cultura. A origem da cultura é alimentar: se salga, se não salga, que a amora tinge de vermelho… E a outra coisa da cultura é o fogo, porque precisa de fogo pra cozinhar, fogo é cultura. Para a formação do conjunto todo, entendeu? Estou falando do passado para falar do presente. A questão da cultura é alimentar e não é só no Brasil, é no mundo. Desse ponto de vista o planeta é deficitário. E como muita gente não come, toda a relação com a cultura está travada. Porque eles não têm a cultura do alimento, a cultura do alimento traz o lar. A cultura do lar cria a relação familiar, o respeito, o pai, a mãe que contou uma história, o avô que desenhava… Porque no lugar que as pessoas não comem, elas não contam história. Sabe qual é a história delas? “O que a gente vai comer hoje à noite?” “Que legal, papai hoje trouxe dois candangos”, “A mamãe deu a maior sorte, achou 2 mandiocas”. Essa é a cultura dessas pessoas. Aí é que começa a questão cultural. 

Mas como reverter isso?

Não é questão de reverter. A política cultural de hoje está nascendo na roda das coisas. É consequência das outras políticas. É tudo anacrônico, isso aí. Ou seja: a política cultural que eu vejo é a utilização do dinheiro público, das leis de incentivo, para com a força do artista e da arte você criar uma outra maneira de educar as pessoas.

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