Aldir Blanc, um brinde ao compositor e escritor

ig1_1_original (3)

Hoje Aldir Blanc nos deixou. Sentimos muito por essa enorme perda para nosso país. Quando Aldir Blanc aceitou ser homenageado em um dos Cadernos de Música, avisou que estava sem paciência para entrevistas e nos recomendou usar alguma já feita. Mas ainda assim, nos respondeu rapidamente, com uma entrevista para divulgação. Foi o que fizemos. Em julho de 2019, ele nos mandou essas respostas sucintas, mas sempre saborosas. Publicamos aqui ela em homenagem a este grande compositor, poeta, cronista e pensador do Brasil. Aquele que Luis Fernando Verissimo, que entendia do assunto, chamou de o maior humorista do país.

Entrevista para Caderno de Músicas, em julho de 2019

1) Aldir, você pode contar como foi a sua infância na Zona Norte e como isso influenciou a sua obra e o seu olhar? 

Foi normal, embora tenha sido criado pelos avós maternos. Essa época me influenciou porque minha avó me levava a terreiros e fiquei fascinado com os atabaques.

2) A Tijuca, um celeiro de grandes músicos, é uma região de troca muito forte entre morro e asfalto. Como isso foi importante para você? 

Porque passei a frequentar, com 17 anos, a Quadra Calça Larga, lá em cima no Salgueiro, e passei a fazer simulacros de sambas de quadra.

3) Como começou sua paixão por música? Quando começou a tocar percussão e bateria? Por que largou e decidiu focar nas composições?  

Primeira parte da pergunta respondida acima. Larguei a bateria porque outros tocavam muito melhor do que eu.

4) Como começou a sua paixão por literatura? 

Desde menino, ao descobrir a obra de Monteiro Lobato.

5) Ao citar seus escritores prediletos, a maior parte é prosador: Sérgio Porto, Carlos Heitor Cony, Guimarães Rosa, Adonias Filho… Como isso influenciou a sua composição? 

É preciso corrigir a informação: A poesia de Vinicius, Drummond, João Cabral, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos, tiveram enorme influência no que eu viria a escrever. Também os grandes cronistas brasileiros me influenciaram muito.

6) Suas letras narram a vida carioca e brasileira, dentro de uma tradição cronista do samba, que já estava presente em compositores como Noel Rosa. Como você vê isso? De que maneira letra e crônica se aproximam e se diferenciam? 

Noel Rosa é a grande influência da minha vida. Acho que letra e crônica se interpenetram.

7) Você possui um trabalho duplo, de escritor e compositor. Já disse que as suas maiores influências (Stanislaw, Haroldo Barbosa, Ary Barroso, Antonio Maria) possuíam também essa duplicidade. Eram cronistas, jornalistas e compositores. Como você vê essa relação no trabalho diário? 

Sempre quis ser, desde menino, compositor e cronista justamente pelos nomes citados na pergunta.

8) Sua relação com futebol, muito presente na sua obra, é só de torcedor ou de jogador também? Como tem visto as mudanças do futebol brasileiro? 

Só de torcedor. Acho que o futebol brasileiro se encontra numa tremenda encrenca, desde parreiradas e outros teóricos inúteis.

9) Antes de ser compositor e escritor, você se formou em medicina e exerceu psiquiatria. Por que escolheu essa carreira? E por que largou para ser compositor? Como foi a reação da família e dos amigos próximos?

Desculpe, mas decidi não falar mais sobre carreira médica, embora um dos maiores orgulhos da minha vida seja a comenda Moacyr Scliar, concedida pelo CFM.

10) Sua obra também está marcada pelo compromisso social. De onde vem a sua formação política? 

Da própria vida. Entrar na adolescência mais maduro junto com o golpe militar de 64 (que idiotas hoje negam) foi muito duro.

11) Como era a convivência no MAU (Movimento Artístico Universitário), que acabou legando alguns grandes nomes da música brasileira, como Gonzaguinha e Ivan Lins?

Não respondo perguntas sobre o MAU.

12) Em um programa Ensaio, ainda no início da década de 1970, você comenta a primeira vez que ouviu as músicas de João Bosco: “me espantou pela violênca delas, acordes muito fortes, uma linha melódia muito angustiada e eu me identifiquei imediatamente com o que ouvi.” Ele, um boêmio de Minas Gerais e você, um malandro do Estácio. Como começou e se desenvolveu essa parceria?

João Bosco morava e estudava em Ouro Preto e o clima da cidade influenciava suas canções. Em tempo, nunca fui um malandro do Estácio. Pelo contrário, os detestava, porque eram covardes e drogados, que submetiam os mais novos ao que hoje se convencionou chamar de bullying. 

13) Você foi cronista do Pasquim. Como vê a questão do jornalismo cultural e independente no Brasil? Qual a importância desses veículos? 

Bom, como se vê, o jornalismo cultural está em extinção, cadernos literários fulminados, apesar do aplauso da direita mais escrota.

14) Você compôs o grande hino da anistia, “O bêbado e o equilibrista”. Como foi ter sido um compositor popular dentro de um períodos mais sombrios de nossa história? E ter criado essa música tão forte e emblemática?

A história dessa música tem duas partes: primeira, a melodia que João Bosco faz para a morte de Chaplin. Aí, entro e sugiro que a figura chapliniana seja estendida aos exilados. É importante ressaltar que o samba O Bêbado e a Equilibrista, se tornou o “hino da Anistia” por movimento espontâneo da sociedade brasileira.

15) Você é um compositor muito profícuo, tendo centenas de músicas gravadas e outro tanto de inéditas. Como é seu processo de composição? Você faz as letras em cima de melodias de parceiros ou escreve para ser musicado? O que muda com a relação com cada parceiro (João Bosco, Guinga, Moacyr Luz…)?  

A maioria das músicas foi, ao contrário do que as pessoas pensam, letrada, ou seja, palavras colocadas rigorosamente em cima da linha melódica. Não há tanta diferença assim em letrar diferentes parceiros; é ouvir e ralar.

16) A bebida sempre foi uma fiel companheira e, há alguns anos, você teve que parar de beber. Isso afetou de alguma maneira na sua composição? 

Esse folclore com a bebida foi muito exagerado, na verdade eu nem era um bom bebedor. Parei definitivamente em 2010, tendo, de lá para cá, bebido com netos adultos, umas quatro ou cinco vezes. E continuo compondo, nunca precisei de bebida para compor. Gosto sempre de citar uma frase brilhante de Paulo Mendes Campos: “Minha fama de bêbado me fez muito mais mau do que a bebida”

17) Você sempre teve muitas críticas ao sistema pelo qual os direitos autorais são distribuídos no Brasil. Qual é o problema dos direitos autorais no Brasil? Com se dá sua atuação nas associações de músicos?

O problema do direito autoral no Brasil é roubalheira. A única vez em que coloquei quatro músicas na parada de sucesso fui expulso da arrecadadora SICAM. Então, tem gente com casas em Búzios construídas com meu dinheiro. Nessa época fundamos a SOMBRAS e depois a AMAR. Tenho orgulho de ter sido sócio fundador e pertencer a elas.       

18) Ao longo de sua carreira como compositor, poucas vezes você se dedicou a cantar suas próprias músicas. Como foi, já na idade madura, gravar um álbum em que você figura como cantor? De onde surgiu a ideia e como foi o processo?

A ideia foi do Moacyr Luz. Não gravei mais porque detesto estúdios, palcos, etc.

19) Em uma entrevista, você disse que “Compositor popular que não sonha com anonimato é uma besta.” Poderia comentar um pouco essa afirmação?

Não há experiência igual a você estar conversando com o músico Paulo Moura numa gafieira, tocar “Dois pra lá, dois pra cá”, e um homem próximo, que não havia nos reconhecido, dizer alto, com evidente alegria: “Ih, minha música! Vou dançar!”

20) Em outra entrevista, você declarou que “o samba ainda é a voz política musical mais importante do Brasil”. Por quê? 

Porque vem da origem, do morro, dos afro-brasileiros e quilombolas que descendem da escravidão. Esses são os mais autênticos guerreiros da nossa cultura, responsáveis por sua sobrevivência. 

21) Como você tem visto o atual momento político do Brasil? E a relação da música e da arte frente a ele?   

Estamos sendo censurados, humilhados e ofendidos por um governo estúpido, boçal e sem referências culturais. Jamais pensei que fosse terminar uma entrevista citando um general, mas estamos sendo triturados por uma fábrica de asneira.

Aldir Blanc

 

Categories:
%d blogueiros gostam disto: