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“E essa é a origem do intelectual e dos grandes professores da Universidade, ela começa assim, começa mística.” diz Eduardo Guerreiro

No programa Papo de Cultura, realizado no dia 30 de junho de 2020, Eduardo Guerreiro B. Losso – um dos nossos últimos autores publicados na nossa coleção Cadernos Ultramares, com o livro “Mística e Anti-Mística no Brasil” – conta sua trajetória que passa pelos seus estudos no Brasil e na Alemanha, que vão de temas como indústria cultural, experiência estética, mística, arte de viver, crítica social, sublime, ironia, secularização, êxtase, negatividade até arte brasileira, simbolismo e música.

Eduardo cita Caetano Veloso, Glauber Rocha, Mario de Andrade, Dionísio, Carnaval e Cristianismo. Vai até a idade média trazendo a origem das Universidades, e a ascese dos monges.

Em uma live esclarecedora conta sobre o início das Universidades, que teve sua origem na mística e na teologia, e comenta sobre o Brasil hoje, e ressalta a forte influência nas artes e nos intelectuais.

Em um papo amplo que permite reflexões diversas sobre arte, cultura e mística no Brasil, o professor associado de Teoria Literária do Departamento de Ciência da Literatura da UFRJ, traz sua riquíssima experiência na área de Letras, com ênfase em teoria da literatura, poesia moderna e contemporânea, literatura e sagrado, teoria crítica, prosa moderna e música pop experimental para a conversa.

Veja abaixo trechos, mas vale mesmo é assistir ao vídeo completo no nosso Canal no YouTube:

O que você pensa hoje sobre a religião brasileira e suas diversas vertentes?

A discussão sobre religião no Brasil sempre foi muito marcada pela ideia de sincretismo. E essa é uma palavra que ela pode até se colocar como “ah legal, eles misturam catolicismo com orixá”, mas é um outra maneira de dizer que é primitivo. Está marcado por dizer que é “bonitinho, mas é coisa de quem não entende… Claro que foi isso que levou a espiritualidade brasileira se tornar uma coisa singular e muito diversa. Uma peculiaridade é a envergadura que o espiritismo, que vem desde o século XIX tomou.

Eu estudo o simbolismo e o simbolismo literário brasileiro é impressionante, produziu ordens esotéricas, como o Dário Veloso, que era um dos intelectuais mais poderosos do final do século XIX , era maçom, mas inventou o Instituto Neo-Pitagórico, com um templo das musas, templo grego. Isso só para mostrar a inventividade da religiosidade brasileira aqui.

Mario de Andrade tem um discussão séria com um intelectual chamado Alceu Amoroso Lima, principal crítico do modernismo, que se converteu ao catolicismo e ele opunha no Brasil, a relação igreja e carnaval, como oposição. E o Mario discorda, dizendo que o interessante é a mistura do cristianismo com o carnaval. E fez um poema, o Carnaval Carioca, sobre no meio da folia, falar de Cristo, trazendo o que esta por trás dessa espiritualidade brasileira: uma mistura de cristianismo com Dionísio.”

Qual a relação da Universidade com a mística?

“Nunca que uma pessoa vai achar que a Universidade tem a ver com mística, até porque uma das coisas que a Universidade mais faz é descartar a mística, evitar falar do assunto. E aí eu tento retirar o senso comum que está em torno disso. O que eu costumo dizer para quem não entende da mística, a questão da história da mística, é que uma das coisas que foi mais estudada na história da Universidade foi a mística, ou as diversas coisas que são a mística”

Porque, muito simples, a Universidade começou com a teologia sendo a rainha das ciências, começou na Europa, no século XII, XIII, e a área mais importante era a teologia. Os intelectuais que começaram a dar aula na universidade foram formulando aquilo que podemos chamar de uma ascese secularizada, e o que seria isso: os monges do passado, da alta idade média, que moravam em mosteiros, eles viviam uma ascese “fora do mundo”, dentro do mosteiro e fora das cidades.

As Universidades são um fenômeno de retomada das cidades. As primeiras Universidades foram em Bolonha que era uma grande cidade e em Paris. Então dos professores universitários que tinham uma ambição e um desejo maior do estudo e do desenvolvimento do saber, até porque tinham muitos professores que não estavam muito interessados em avançar no saber mesmo, até porque nesse primeiro momento ela não servia para isso. Ela tinha um objetivo meramente de formação de quadros para a igreja, quadros burocráticos.

Mas haviam alguns professores que tinham esse desejo e eles formularam uma coisa curiosa, pois como na época o modo de vida monástico tinha muito valor, era considerado mais elevado, então eles fizeram uma espécie de competição com o monge, para mostrar que eles também renunciavam ao mundo através do estudo e eles produziram uma ascese dentro da cidade, mas tão rigorosa e tão desejosa pelo divino como os monges. Então aquilo que entendemos por intelectual hoje, vem dessa ascese intelectual que aconteceu no início da Universidade. E essa ascese era espiritual também, mas através do estudo da filosofia, da poesia, enfim. E essa é a origem do intelectual e dos grandes professores da Universidade, ela começa assim, começa mística.”

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