Logo Revista de Cultura

16 de setembro de 2020

A BRASILEIRA QUE FEZ LA FEMME COMER LA NATURE DE FRANK BURBAGE

Erica Magni

Na mitologia grega, Hera estava com o peito cheio de leite e Zeus queria botar o Hércules, que não era filho dela, para mamar. Ela se negou a dar o peito pra um filho que não era dela. Então, quando Hera estava dormindo, Zeus vai lá, pega Hércules e encaixa no peito de Hera, que prontamente acorda, toma um susto e tira o peito rápido, e jorra leite no céu, formando a Via Láctea…

 

Cecilia Cavalieri é alguém que se transladou por díspares coagulações até chegar no título de quase formada, ou quase doutora em leite. O jorro de suas tetas foi tão grande, assim como o voo de suas ideias, que inevitavelmente chegaram à França, onde publicou, em língua francesa, o LA FEMME – o que ela não chama de livro e sim de dispositivo contracolonial de discurso filosófico. “Eu mudei todas as palavras nature (natureza) para a palavra femme (mulher), em um livro de bolso de 1995, chamado La Nature, de Frank Burbage”, conta Cecilia. Na segunda edição, a coluna Translação nos presenteia com uma tradução inédita da introdução do livro La Femme, assim como detalhes íntimos da pesquisa de Cecilia sobre o leite. Pesquisa esta que se encaminha para os contornos finais, já que ela deve defender sua tese de doutorado em breve pela UFRJ, ainda sem data marcada, pois se divide nos papéis de mãe, artista e acadêmica. “A maternidade é um ato político por si só. Ainda mais quando você é artista. Este corpo de artista que precisa gerir um corpo de criança, sendo o corpo da criança no contexto do Brasil, onde não há nenhum subsídio para que uma mãe exista. Não há creche pública para todos, quando a criança nasce você tem que entrar numa fila de espera. Entre outras questões, tipo o uso da fralda descartável, não entendia o peso desse descarte poluidor. Fui entender as estatísticas. Quando a Dora tinha 11 meses, eu entrei no doutorado. Estava em plena formação acadêmica e fui estudar também o aleitamento. Fiz uma segunda formação real, estava em plena concepção como mãe nutriz. Realizando a formação parental, fui ler quinhentos livros de pedagogia, entender a educação Montessori. Inclusive achei o fim da picada este esquema que prega uma autonomia para a criança. Aí você entende como esses processos são parte de uma construção de uma sociedade muito doente, que prega esta liberdade, como fala a Maria Montessori, uma ‘autonomia da criança’. Qual é a criança que tem autonomia? Não existe autonomia, e este conceito é um conceito que catapulta muito os outros conceitos liberais. Até projetos neoliberais do Estado… então, não existe autonomia”, argumenta Cecilia. E defende que é preciso enxergarmo-nos como organismos codependentes, para saltar do olhar comum, podendo então ser parte desta tese filosófica, que praticamente nos coloca de frente para uma lente macroscópica no cotidiano de uma doutora, mãe, mulher, artista, lactante.

 
Cecilia Cavalieri posa bravamente com a obra La Famme em sua casa no Centro do Rio








Link para baixar tradução em português inédita de trechos de La Femme https://ceciliacavalieri.com.br/a-mulher-trechos

Link para baixar o pdf original do livro La Femme em francês https://ceciliacavalieri.com.br/la-femme-download-pdf

O ponto de partida da pesquisa de Cecilia tem muito a ver com a filósofa ecofeminista Emilie Hache e sua coletânea lançada em 2016, o livro Reclaim: Recueil de textes écoféministes (Reclaim: Coleção de textos ecofeministas). “Conheci a Emilie em 2014, quando organizamos o evento Os Mil Nomes de Gaia (Evento idealizado por Déborah Danowski, Bruno Latour e Eduardo Viveiros de Castro e coorganizado por Alyne Costa, Cecilia Cavalieri, Felipe Sussekind e Juliana Fausto), ela era uma das conferencistas. Nós estávamos grávidas de dois meses. Ainda naquela fase de não contar para ninguém. Mas ela me falou sobre a gravidez dela, e eu contei sobre a minha, no jardim da Casa de Rui Barbosa. Ficamos amigas na hora. Eis que, em 2015, nasceram Dora [em maio] e Ferdinand [em abril]. Em 2016, ela lançou este livro que mudou a minha vida e, em 2018, fui para a França fazer a bolsa sanduíche com ela como minha orientadora, conta Cecilia. Ela enfatiza que foi a partir do livro de Emilie que encontrou um texto de Susan Griffin, chamado Où sont exposées conjointement et chronologiquement les idées de l’homme à propos de la nature et des femmes (Onde são apresentadas conjunta e cronologicamente as ideias do homem sobre a natureza e as mulheres).

Finalmente, Cecilia havia batido de frente com a problemática que faria uma ponte importante para um experimento literário até então inédito para ela e para muitos filósofos franceses. “O livro de Susan faz uma análise cronológica das ideias dos pensadores homens [cisgênero] em torno da natureza das mulheres [cisgênero]. Ela nos mostra que a ideia de natureza e a ideia de mulher são muito aproximadas, não só neste ‘mundo das ideias’, mas inclusive no mundo prático, este lugar que a gente perfura, penetra para extrair petróleo, que é a terra. Há muitas relações de semelhança entre o que se fala de mulher, a noção de mulher, e a noção de natureza. Ambas servem para fecundar. Aquela que nos dá comida, que nos nutre, que a gente precisa para nosso sustento. A que precisa ser fertilizada, todo este imaginário que vem de uma ideia de entendermos a mulher, e de entendermos natureza.  E aí, quando eu pego este livro, eu penso: e se eu fizer o teste literal desta hipótese? Se eu pegar os textos da história da filosofia e trocar todas as palavras natureza pela palavra mulher, o que acontece? Fiquei trabalhando por um tempo, procurando uma coletânea de textos em português que fosse suficiente. Não achei, tentei na coleção Os Pensadores, sugestão da amiga e filósofa Juliana Fausto, e fui lá atrás. Não rolou. Porém, com a coleção, eu acabei desenvolvendo um outro trabalho com vassouras e buracos, o Mundos em fricção – Exercício interespecífico de tradução de miolos, obra concebida em de 2018”, ressalta Cecilia.

Depois de pesquisar nos livros escolares e também não obter sucesso, Cecilia acabou tendo uma ajudinha de ninguém menos que Deborah Danowski. “Ela é uma das pessoas para quem dedico o livro LA FEMME. É uma filósofa super importante, que trabalha com negacionismo. Fundadora de linhas de pesquisa na PUC, como Filosofia Moderna, Metafísica, Novas Ontologias, Pensamento Ecológico. É idealizadora do evento Os Mil Nomes de Gaia. Um dia ela achou um livro de bolso da editora francesa Flammarion, uma coleção de livrinhos de bolso. Ela me mostrou e disse ‘talvez esse livro te interesse’. E, realmente, o livro se chamava La Nature (A Natureza), e para mim foi muito mais simples, porque eu escrevi o livro e fiquei trocando a palavra natureza por mulher. Obviamente, eu ria muito, rolava de rir. Mas, enfim, depois a gente vai lendo e vai entendendo que é engraçado por um lado. Mas, por outro lado, é tudo tão absurdo e ao mesmo tempo é perverso, é duro demais”, conta Cavalieri.

Audaciosamente, num belo dia de setembro, o livro LA FEMME foi publicado em Floriparis, pela editora Psémata [um selo artimanhoso da Cultura & Barbárie], em 2019. Com um curto orçamento, muito bem remanejado do valor oferecido pela bolsa da CAPES, Cecilia reuniu uma equipe de mulheres amigas para realizar um projeto grandioso: fazer uma piada urgente com os nomes mais clássicos da filosofia, ressignificando La Nature, de Burbage. Ela apenas trocou as palavras natureza por mulher, desde a introdução até o último artigo, que é de Spinoza, começando por Aristóteles. A diagramação do livro é de Marina Moros, da editora Cultura e Barbárie, e a revisão é da francesa Anne-Laure Blusseau, da editora Questions Théoriques. No total, deu para imprimir 400 exemplares e ainda fazer uma tarde de autógrafos na La Centrale 22. Depois do lançamento, a autora inicia um processo bastante divertido e libertário, quando começou a infiltrar alguns exemplares de seu LA FEMME nas principais livrarias intelectuais da cidade. “Inclusive o Bruno Latour me procurou por inbox no facebook, dizendo que estava deslumbrado e admirado com La Femme, que tinha ganhado um de Emilie Hache. E perguntou como poderia conseguir mais. Como não tem em circulação oficial, fiz chegar até ele 5 exemplares, conta.





Livro La Famme de Cecilia Cavalieri infiltrado na Librairie Philosophique J. Vrin em Paris


Além de natureza por mulher, Cecilia foi trocando todos os congêneres. “Troquei naturalismo por feminismo, natural por feminino… e aí depois eu descobri que este cara, o Frank Burbage, é importante, e que o LA FEMME tinha virado um sucesso entre os filósofos acadêmicos. Os nossos amigos franceses acharam muito ousado, isto porque eu estava tocando no cerne da existência do pensamento francês, debochando disto. Não adianta a gente só ficar pensando e fazendo os exercícios ecofeministas. Tive uma oportunidade de fazer uma interferência relevante, que chamo de uma intervenção do futuro na história da filosofia. Era muito incômodo estar ali enquanto brasileira que não tinha lastro ou berço, num contexto elitizado por si só. Eu, uma mulher latina que demorou 12 anos para conseguir um diploma de graduação. Sempre trabalhei muito, não pude me dedicar aos estudos imediatamente. Como é a realidade de muitas pessoas. E aí aconteceu este livro, eu o deixei em várias livrarias muito fodas de Paris, e também em Toulouse, quando fui falar na Université Toulouse Jean-Jaurès, a convite de Jean-Christophe Goddard. A grande jorrada/gozada é que não posso ser processada por plágio porque troquei todas as palavras e troquei o nome do autor. Em francês, não sou competente em traduzir filosofia, mas sou bem competente para avacalhar”, termina Cavalieri.









Alguns dados sobre a lactante pesquisa de Cecilia Cavalieri, por ela mesma:

em um laboratório de especulação científico-poética

durante 3 semanas de observação

vivi ao lado de quatro línguas

maternas

observei a decantação

a transformação

a decomposição

a degeneração

a disposição

dessas línguas no tempo

outrora

durante 30 meses de experiência leitosa e doméstica

na qual nutri minha filha

um corpo de filha

percebi que quanto mais ela falava menos ela mamava

o leite era sua primeira língua

a língua materna

as primeiras gotas de leite nascem com o bebê

a composição do leite se transforma com o bebê

os anticorpos são gerados a partir da comunicação

entre saliva & mamilo

estudos de imunologia clínica revelam que

uma vez que o bebê cai doente

o número de leucócitos aumenta no leite de sua mãe

há épocas em que o bebê precisa mais de açúcares

há épocas em que o bebê precisa mais de gorduras

há épocas em que o bebê precisa mais de proteínas

o leite as envia sob medida

nossa língua é uma derivação do leite

o leite é vivo

durante 3 semanas

em um laboratório de especulação científico-poética

vivi ao lado de quatro leites

maternos

ovelha – vaca – cabra – monika

vi que nenhum leite é branco

eles são todos uma variação de amarelo

vi que o leite de ovelha é mais gordo

vi que as moscas preferem a cabra

vi que o leite de vaca se tornou menos sólido que os outros

vi que o leite de monika produziu bolhinhas de ar

vi o nascimento de quatro luas

com padrões e desenhos diferentes

certa vez amamentei uma gata

ina era uma adulta e desprezou o leite que derramei em sua tigela

corpos celestes são corpos com tetas

a via láctea de uns é a via crucis de outres

há galões de pus nos ventres das crianças desmamadas do antropocenoas vacas já enviaram uma mensagem cifrada



  • O leite é uma transmissão de fluxo de informação entre uma glândula mamária e uma língua. É como se o leite fosse uma língua mãe.


  • A língua de quem mama e a saliva em contato com o leite seria, em sua tese, um relevante sistema informacional, potente, que foi erradicado da experiência humana.



  • Este sistema de comunicação nos teria sido roubado. Assim, seria uma língua que foi roubada de outros contextos mamíferos.



  • Gosta de pensar no conceito como língua mãe. Mas também estuda muito a questão da transgeneridade: todo corpo humano é capaz de produzir leite.



  • Toda glândula mamária é capaz de produzir leite. Assim, todo homem e mulher trans, homens e mulheres cis, todos os seres que possuem glândula mamária podem produzir leite e amamentar.


  • Todo leite é o leite de uma ou outra mãe e de um ou outro bebê. O leite é específico. Cada espécie produz um tipo específico de leite para cada filhote.



  • No contexto humano, pensar este leite como um leite materno, talvez não seja parte de uma conclusão final da pesquisa, pois há de se trabalhar a possibilidade de um leite paterno, por exemplo… por que não? Podendo ser também um leite transterno. Enfim, leite humano.



     
  • Quando falamos de leite humano, devemos nos preocupar em não repetir os mesmos defeituosos e insuficientes conceitos do humanismo. Conceitos que fundam a nossa cultura e entender que este humanismo de alicerce é o mesmo que exclui os animais, as crianças e mulheres.  


  • A luta, então, seria como chegar ao fim desta tese sem reproduzir o discurso humanista que exclui animal, criança e mulher. Não repetir os mesmos erros de um sistema de pensamento patriarcal para pensar esta linguagem.


Via Lactea – uma especulação cosmopoética’ (2019) é uma investigação indisciplinar em torno da noção de leite como língua e com trabalhos que atravessam a ecologia/economia dos corpos de leite que nutrem a vida contemporânea, partindo de uma observação doméstica: quanto mais minha filha fala, menos ela mama; o leite é sua relação mililítrica com o mundo; o leite materno é uma língua, é a língua-mãe. Trata-se de uma pesquisa experimental (constelações teóricas, imagéticas, escultóricas e sonoras) em torno da amamentação e do leite: não apenas sobre a relação mãe-filhx mas, no Antropoceno – em meio ao colapso moderno e climático –, uma questão cosmopolítica do feminismo multiespecífico que pensa as línguas não-negociadas com outras mamíferas e os sistemas de subalternização humana e não-humana envolvidos na amamentação prolongada e interespecífica. Neste contexto, como não fazer um paralelo entre a economia do leite na terra e a formação leitosa do céu ocidental?

Este vídeo é composto a partir de um timelapse feito da observação de 4 leites de fêmeas distintas: cabra, vaca, ovelha e monika (1 foto a cada 7 minutos, durante 3 semanas). Para a composição sonora, gravamos e manipulamos leites de diferentes densidades (karoline, vaca, cabra e ovelha) com hidrofones.”

Vídeo “Via láctea – uma especulação cosmopoética”

Assista: https://vimeo.com/370704714





Por @ericamagni

Arte @lane_bum

Revisão: zé carol

Compartilhe

Voltar ao topo

Postagens populares

Erica Magni

16 de setembro de 2020

A BRASILEIRA QUE FEZ LA FEMME COMER LA NATURE DE FRANK BURBAGE

Cecilia Cavalieri fez seu jorro ir tão longe, até chegar onde publicou, em língua francesa, o LA FEMME – o que ela não chama de livro e sim de dispositivo contracolonial de discurso filosófico.

Erica Magni

14 de outubro de 2020

OS RITOS DE MORTE QUE NOS CONDUZEM A UMA LUTA BASEADA EM VALORES ÉTICOS E ESTÉTICOS INEGOCIÁVEIS

Ana Beatriz Almeida cria corpos ancestrais para desaparecidos políticos negros que foram mortos na ditadura e nos leva a uma profunda reflexão sobre o universo simbólico da morte na cultura afro-brasileira