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Retrato de Bianca Kalutor feito com fogo e escarificação no metal por Lane Bum
Retrato de Bianca Kalutor feito por lane_bum

Não há o que Bianca Kalutor já não tenha testemunhado nesta vida. Conversar com ela é como ir rasgando, uma a uma, as mentiras que nos contaram. É insano tentar acomodá-la em um espaço convencional, assim como tornar o discurso desta artista algo simples, embora esteja o tempo todo dizendo claramente o que tem que dizer. É preciso ter coragem para compreender todo universo que pulsa de sua existência. É extrema, sim, muito mais do que todes nós juntes poderíamos imaginar. E para entender Bianca é preciso ir muito além da palavra, códigos, totalidades. É preciso andar com ela pelas mesmas vielas, nas mesmas calçadas que ela andou.

No entanto, é mesmo com a palavra que vislumbramos contar essa história, através de um documento minucioso, que contém todas as informações necessárias para chegarmos a um lugar comum com Bia. Um manifesto inédito, que publicamos hoje, num dia tão despretensiosamente calculado. E lançamos também uma chamada pública que batizamos de UM CHÃO PARA BIA, que traz um tema urgente para esta artista: moradia. Assim, com bastante pressa, chegamos à 4ª edição da Coluna Translação, com a sorte de poder ainda entrevistar uma artista tão importante na cena Queer contemporânea.

Clique na imagem para ser direcionado ao link da chamada pública Um Chão Para Bia

Quem ainda não conhece Bia, provavelmente irá conhecer em algum momento, e talvez não tenha sido ou será uma experiência tão agradável, mas com certeza transformadora. Bia não vai morrer mais, ela está em todo lugar. Bia é um artefato de fogo, uma flecha em chamas, uma navalha certeira, pronta para desarmar os discursos mais contundentes sobre o que é existir.

Atualmente com 34 anos, ela contraria as estatísticas: quantas travestis você conhece? Bia, por estratégia, ainda está viva, e as pessoas chegam a se espantar, se perguntam como ainda seja possível.  Uma artista negra, travesti, abandonada à própria sorte na infância, que passou por abrigos públicos, unidades de ressocialização, prisões, habitou na solidão mais profunda, respirou nos lugares mais bizarros, negociou com seu corpo, morou nos mais pútridos becos corrompidos pelo preconceito. Teve sua vida nas mãos de muitos psicopatas do Estado, os que são pagos para torturar corpos negros, corpos trans. Negociou, trapaceou, sobreviveu.

Aqui, em uma metáfora literária canônica, Bia poderia ser a poeta Vírgilia, que acompanha Dante até o inferno e faz um tour pela memória deste país racista que aniquila suas próprias filhas pretas. Um inferno bastante real, um caldeirão que não parece ter fim para Bia e para muitos – a maioria de nós. Bia está viva, mas muito vulnerável, já que ainda luta por um chão, por acolhimento, afetividade, concretude, longevidade.

Quer poder ter um cachorro alto correndo no quintal, ter filhos, ter plantas, desejos básicos. Através da luta de Bia vamos poder contribuir para mudar uma história que se repete, mas que também irá ecoar aos quatro cantos do mundo. Até quem sabe chegar na lua.


Eu passei por muitas situações, muitas questões na minha vida, que eu acho que não tenham sido o suficiente para eu entender como é que é o mundo. Acho que a gente não tem que entender como é o mundo. Porque a gente é só viver. E aí isso pra mim se torna bizarro, torna-se bizarro porque eu não vivo, eu interpreto. Você entendeu? Eu não vivo. Quando eu vivo a minha espontaneidade… Eu procuro me preservar, porque minha espontaneidade não é ainda vista, não é ainda comentada. Agora, neste momento, que as pessoas estão notando, estão falando, estão procurando saber sobre pessoas trans, estão querendo na verdade encontrar talentos para explorar. Só que na verdade a gente não vem desse lugar. A gente não vem desse lugar que vai ser um talento. Hoje eu me descobri artista. Minha consciência como ser artista vem já de anos, só que não necessariamente eu sou “reconhecida”. Eu me reconhecer como artista pedia requisitos, porque a palavra artista é para quem já havia preenchido os requisitos. Hoje não, hoje eu sei que meu corpo é arte. Eu ser viva é arte. Eu me vejo sendo interpretada na televisão, eu me vejo sendo interpretada na rua. Eu me vejo sendo interpretada. Ou, se não é isso, é o contrário: eu estou interpretando todas essas coisas. Você entende o que eu estou querendo te dizer? Quando eu acordo, que eu me maquio, quando eu “transpasso uma heterossexualidade” por conta da passabilidade social feminina. Hoje eu entendo o que é ser a mulher, aí eu fico num lugar muito venenoso da coisa. Porque eu saber como é ser a mulher é triste. Que hoje me faz querer dizer que não, eu sou a travesti, e a travesti é diferente da mulher [cis] heterossexual. Eu afirmo isso por conta da política, porque há uma política que enquadra todos nós. Eu sou artista e sou também uma ativista. Eu não posso lutar sua luta no sentido de vida, porque não é minha história de vida. Eu posso falar, posso divulgar sobre a sua luta, mas eu não vou poder lutar sua luta. A minha luta é de um lugar de empregabilidade. De empregabilidade que nos falta. De possibilidades sociais. De proteção. Lei. Lei de proteção.

(Trecho da entrevista de Bianca Kalutor concedida a Érica Magni para a Coluna Translação)

Por @ericamagni
Arte @lane_bum

Assinam o manifesto:
Texto de Bianca Kalutor
Edição do texto: zé carol
Arte: @lane_bum

Assinam as peças da chamada pública:
Vídeo: @caio_d_arte
Design e Direção de Arte: Wolmin Dahgrota / DgHorizon.cc

Ana Beatriz Almeida cria corpos ancestrais para desaparecidos políticos negros que foram mortos na ditadura e nos leva a uma profunda reflexão sobre o universo simbólico da morte na cultura afro-brasileira

A luta não se negocia, e tendo já dito com o próprio corpo – este que é revestido de legítimo material bélico, com a própria pele em chamas por tudo – está quem ressalta aos nossos olhos e ouvidos: A luta não é negociável, e não se vende a memória”. Vamos assim, de maneira trôpega, acompanhando o movimento das omoplatas, tateando esquinas do tempo, que se dobram para fora do pensamento eurocêntrico, diferente do que nos ensinaram nas escolas. Ainda de mente imatura, vamos ensaiando cuidadosamente embarcar na obra de Ana Beatriz Almeida, uma artista múltipla e apaixonante que nasceu no ano de 1987, no bairro do Fonseca, em Niterói – RJ.

Ela, que é uma estudiosa sobre a morte e iniciada na religião Vodoun, nos deu a honra de ser nossa entrevistada na terceira edição da Coluna Translação. É um alento poder ouvir Ana Bee, batizada carinhosamente por esta coluna como a nossa Abelha Rainha. É precioso imergir em suas mágicas construções e perceber como é bonito redescobrir o desejo de aprender outros desejos, outras narrativas, que não passem pelas mãos brancas da história.

“Eu criei entidades para desaparecidos políticos que tiveram seus corpos sumidos pelo Estado. O trabalho considera essas pessoas que lutaram pela democracia e eram negras. Então, na verdade, elas estão lutando numa luta contínua que vem desde a escravidão. E assim, acabam vindo para aconselhar a gente como forças atuais, poderosas, que impactam o porvir. Tudo isto aconteceu em 2016, durante o impeachment da Dilma. Ainda não vendi estas obras no Brasil, é uma performance ritual e o que crio são entidades”, antecipa Ana Beatriz, sobre a obra Kalunga, que dá inicio ao segundo ciclo de danças de cura, criadas a partir de ritos de morte do candomblé do Recôncavo baiano.

O projeto é uma parceria com o artista Thiago Consp e a cineasta Luara D, onde Ana Bee desenvolveu rituais de transição para duas personalidades vítimas da tortura na ditadura militar no Brasil. Numa instalação-rito, percorre-se um trajeto composto por três fases onde imagem, corpo, texturas e cheiros guiam o público através de um rito de passagem. Nesta travessia, o mar aparece como metáfora para a morte. Entre sensorialidades, fotografia e videoarte, o público é introduzido com beleza profunda e cuidadosa ao universo simbólico da morte na cultura afro-brasileira. Guiada por duas vertentes distintas da resistência política da época: o líder operário da greve na Fábrica de Perus, João Breno, e a estudante negra que abandonou o curso de letras da USP para aderir à guerrilha do Ararguaia, Helenira Resende Nazareth – a quem Ana nitidamente cultiva uma ligação ancestral de resistência que virá ser o foco principal deste trabalho. Através de Sumaia Leite, uma amiga que já sabia da pesquisa em andamento, Ana conheceu Helenalda Resende Nazareth, que, infelizmente, ainda em 2015 buscava o corpo da irmã assassinada pela ditadura.

“Sem um corpo não há crime, eles não querem encontrar o corpo, pois um corpo é uma evidência de um crime bárbaro com magnitude suficiente para devastar quem ficou aqui sentindo saudade. Eu quis dar algo para esta irmã, era o mínimo que eu podia fazer naquele momento”, relembra.

A obra Kalunga, que dá inicio ao segundo ciclo de danças de cura, criadas a partir de ritos de morte do candomblé do Recôncavo baiano
Foto: Arquivo pessoal

Sua paixão pela pesquisa sobre a morte se deu por um acaso profissional, embora já fosse engajada desde os 17 anos na prática do butô, dança que surgiu no Japão pós-guerra. Foi só em 2010 que Ana soube da existência da Irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte.

“Cheguei no município de Cachoeira sem querer. Na verdade, fui para estudar tecidos de santo, através de pesquisa antropológica para uma ONG. Me falaram desta antiga irmandade, provavelmente o primeiro grupo feminista abolicionista da América Latina, que se instaura por volta de 1820 em Cachoeira. Lá foi o local que recebeu o maior número de pessoas durante a escravidão. O mais louco é que eu nunca mais parei de ir lá e nem de pesquisar sobre isto. O tema da minha última obra se chama o Sacrifício Ritual, e fala justamente sobre este corpo ancestral que criei para Helenira Resende, a única mulher negra do curso de Letras da FFLCH-USP, foi torturada por Sérgio Fleury na ditadura. Depois ela foge para o Araguaia e vira líder de destacamento de tiro.  Helenira morre em 1972. Ela merecia um portal preciso de comunicação, porque a vida dela significou muito, é urgente recordar esta existência. O trabalho quer relembrar que ela foi a filha de um dos mais antigos médicos da cidade de Nazaré das Farinhas, provavelmente um dos primeiros médicos da Faculdade de Medicina da Bahia, e que era comunista como o meu avô era. Tem umas narrativas, uns deslocamentos que se repetem, e justamente é esta a lógica do candomblé”, explica Ana.

Com uma ternura ácida e irreverente na maneira de doar-se, a artista tece uma infalível trama, de liga potente, capaz de transformar o conhecimento de sua ancestralidade em um verdadeiro presente para nós. A partir dos olhos dela, a lógica do retorno, junto com as dobraduras do tempo, vai nos ensinar o que ninguém nos contou, mas precisávamos finalmente saber. Ana é capaz de mover a energia da morte através de ritos de renascimento e também transitar entre mundos desconhecidos através de suas performances, baseadas em experiências profundas de autoconhecimento. Sua pesquisa e seus trabalhos lançados nos dão fortes indícios de que é inútil tentar separar a linha da vida e da morte, e esta dedicação virtuosa tem levado a artista pelo mundo afora.

Foto da série O Retratista de Nicolas Soares

Ela foi curadora convidada da Bienal de Glasgow 2020, é mestre em História e Estética da Arte pelo MAC-USP e doutoranda no King’s College (Reino Unido). Depois do final de 2018 e início de 2019, realizou workshops em instituições africanas e europeias com sua pesquisa sobre novas ferramentas de crítica de arte contemporânea da África e Ritos de ascendência africana (Instituto ANO – Accra / Gana, Zinsou – Cotonou / Benin, Tate Modern-London /Inglaterra, CCA- Glasgow / Escócia, KM Institute for Contemporary Art- Berlin / Alemanha).

Dotada de uma paciência também irreverente, a artista segue esmiuçando para nós a dinâmica dos ritos com origens no candomblé, e nos empresta conhecimento para avançar, fazendo o exercício instigante de pensar conosco sobre o mercado de arte brasileiro, que, ainda muito atrasado, continua excluindo cinicamente artistas negres, através da lógica do racismo estrutural de uma elite branca defasada.

Na militância artística, Ana desenvolve um brilhante trabalho com a 0101 Plataform, onde atua há um ano como curadora, captando, projetando, apoiando grandes artistas contemporânies, proporcionando visibilidade, lutando por equidade. Metaforicamente, cumpre o papel da águia bravia, protetora de seus filhotes: não negocia suas obras, nem as des artistas que representa, sem que haja uma política de reparação, ações afirmativas em relação à porcentagem de vendas das obras destes artistas negres.

“Você tem os odus, como se fosse a cabala dos iorubás, mas ela também existe nos Ewe, produzir estas divindades em forma de ritual vai de encontro com o sentido de produzir novos Orixás. Provavelmente a Helenira é um Orixá meu. Assim é, um ori que tem uma trajetória próxima à minha. Que eu estou cuidando com carinho para ela não ser esquecida. Querem que ninguém saiba que Helenira existiu, mas eu sei que ela existiu.  E aí, olha a curva do tempo se formando, esta obra está sendo desejada por grandes galerias aqui no Brasil. Queremos vender, mas não em valores que repitam uma vulnerabilização estrutural. Tem coisa que não pode ser negociada, a luta não tem preço. Você não negocia a luta, a vida dela já foi roubada, já foi extirpada. Até hoje ninguém sabe cadê o corpo de Helenira, eu não posso simplesmente vender o ‘corpo’ dela, né? A construção destes ritos vem daí, produzir novos Oris. Quebrar a lógica do sistema. Somos 1% no mercado de arte, ou menos, é um dado triste e cruel, estamos bem ligados sobre a perpetuação destas práticas, queremos reparação”, diz Ana.

A militância nos campos da arte e da política foi inevitavelmente inspirada pelos avós maternos de Ana. “Da minha avó [que costurava para drag queens] eu herdei o desejo de ser artista, do meu avô, o chamado urgente de lutar contra injustiças. Ele participou da Var Palmares, um braço da luta armada no Brasil. Era boxeador, depois foi diretor da Central dos Bondes, durante a ditadura permaneceu clandestino com a família”. Para a artista, o universo que lhe sobrava ainda criança era o cotidiano de uma casa afetada pelo medo de perder a liberdade democrática, este foi um fator marcante para encadear o desconhecido e transformar agonia em arte.

“Minha mãe sofreu muito com ansiedade infantil. Imagina uma criança de oito anos que vive nervosa pois ela acha que o pai irá desaparecer. Esta noção de um possível sumiço político foi um trauma. E aí usarei a lógica iorubá para pontuar. Você é a sua mãe e sua mãe é você. O seu óvulo estava sendo formado na no útero da sua avó, então você e sua mãe têm mais do que uma raiz. Ela nunca me falou sobre isto claramente, foram coisas que eu descobri muito tempo depois. A ansiedade dela sempre foi visível. Angústia com comida sempre foi visível. Nunca entendi direito de onde isto vinha. Eu sabia que tinha a ver com o momento em que meu avô estava clandestino, mas eu nunca soube em detalhes. O Natal na minha casa era uma loucura. Minha avó adorava fazer a ceia, minha mãe usava os tecidos africanos na mesa e meu avô gritava que éramos iludidos”, relembra a artista.

Ainda em Niterói, num universo em que ela não se encaixava, inclusive por ser uma das únicas alunas negras da escola, a artista sentia que aquele ali definitivamente não era o seu lugar no mundo.

“Queria sair deste lugar. Eu não clara, nem branca, não tinha o estereótipo da Malhação. Não tinha vocação pra ser uma Juliana Paes. Esteticamente eu era negra. Não tinha saída para mim, eu não ia ter uma adolescência ok. Eu era esquisita, eu era vista como ‘aquela aluna negra’. Queria saber como seria viver num lugar diferente. Então prestei vestibular para USP, para cursar tecnologia têxtil, mas tinha algumas atividades artísticas e de engenharia. Fiz Tecnologia Têxtil, que é o atual Têxtil e Moda. Eu quis também ir à São Paulo para fazer CPT (Centro de Pesquisa Teatral) e trabalhar com Antunes Filho”, conta.

Outro ponto crucial para alçar voos maiores foi descobrir a verdadeira e brutal história da colonização, através de uma viagem com a mãe na infância. “A minha mãe era muito de boa, ela fazia umas mensagens subliminares comigo, é muito boa pedagoga, não precisa dizer que está fazendo uma coisa para ela fazer a coisa, é canceriana e muito manipuladora. Quando eu fiz seis anos ela me perguntou: você quer uma grande festa ou viajar pela Bahia? Obviamente eu falei que queria viajar. E a gente fez o que eu nunca vou esquecer, uma viagem que ia de Abrolhos, passando por Arraial D’ajuda, Vera Cruz, no primeiro lugar onde os portugueses chegaram, até Salvador. Ela queria fazer esta viagem independente do que a escola iria me contar nos próximos anos. Ela queria que eu visse como meus próprios olhos como se deu a colonização, me transformando para sempre”, conta Ana.

Já estabelecida na cidade de São Paulo, sua vocação artística gritava cada vez mais alto, sobrepujando a rotina acadêmica e seus métodos de pesquisa dentro da USP. Ana precisou reconsiderar o rumo de sua pulsante jornada de descobertas.

“Eu queria ser artista, mas eu não queria assumir. Virei antropóloga, aí durante o período que eu estava pesquisando a Irmandade Nossa Senhora da Boa Morte, eu percebi que eu ia ser muito escroto publicar sobre aquelas mulheres. Elas me contaram várias coisas íntimas dos rituais. Liberando para mim coisas muito sérias e importantes. Se publicasse dentro da antropologia, iria instrumentalizar aquele conhecimento que estava sendo confiado a mim. Então, resolvi mudar de antropologia para arte e aí cheguei aqui onde estou, uma pesquisa que já dura quase dez anos”, ressalta.

De tal modo, encontrando seu lugar no mundo, a artista estabelece uma relação afetiva de ancestralidade com a comunidade onde nasceu o candomblé. “Lá é onde tem a igreja de onde saíram os três primeiros terreiros mais antigos, Gantois, Casa Branca e o Ilê Axé Opó Afonjá. Elas tinham uma igreja na Barroquinha, que foi queimada em 1820 pelo Governo da Bahia. Na frente tinha os ritos católicos. E, nos fundos, os africanos e afrodescendentes podiam cultuar suas tradições. Sem interferência, por conta da fachada da igreja católica. Esta irmandade se organizava com o intuito de promover um funeral justo para os escravizados. Antes da irmandade havia uma deposição dos corpos das pessoas escravizadas na rua. Se você fosse um escravizado sem família, se você morresse trabalhando, não teria um funeral. Você era só uma mão de obra, e como o corpo estava desprovido de alma, eram jogados na rua, provocando desequilíbrio psicológico na população escravizada. Então a Irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte se organizava em torno de fazer um ritual justo para aqueles que morriam em situação de escravidão, elas também adquiriram a liberdade de outros escravizados para que eles não morressem dessa forma”. 

Outra análise pertinente da artista questiona o conhecimento detido pelos antropólogos sobre os ritos de candomblé. “Acontece que depois desta uma década estudando a Irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte para a Unesco, como uma pesquisa da USP, sabendo muito, pois elas se abriram demais para mim, eu fui realmente abraçada pela comunidade a ponto de não conseguir publicar coisas sobre elas, sem elas. Na minha defesa da dissertação mesmo, trabalho com duas irmãs da Boa Morte. É uma disputa de narrativa mesmo da antropologia. Os antropólogos são os que detêm grande poder, grande conhecimento sobre o candomblé. E na maior parte eles são estrangeiros, como Pierre Verger, Roger Bastide, nenhum deles é mulher, nenhum deles é negro, e eles são de cânones do candomblé. Esta pesquisa é um trabalho de transformação, compreensão e generosidade. A irmandade é um grupo feito só por mulheres negras e existe até hoje. Falando com você fica bem nítido para mim que a 0101 Platform, vem desta inspiração. Você tem estas mulheres que se organizam em uma estrutura, que permite tudo, permite a vida. Elas se organizavam nesta estrutura da igreja, na verdade você tinha ali muitas etnias, e elas possibilitavam que eles pudessem cultuar seus ancestrais, qualquer um que tivesse um culto, podendo ser Zulu, Jejes ou Bantus. Enfim, eles podiam cultuar seus ancestrais, que é uma das coisas mais importantes, né? O direito à ancestralidade. É isto que tirava a humanidade das pessoas. Então a organização destas mulheres é justamente construir um lugar onde se podia cultuar estes ancestrais”, conta. 

A trajetória política de Ana ganha mais fôlego em 2016, onde passa a atuar diretamente na Ocupação Preta, da Funarte. “Depois do impeachment ficou tudo muito estranho. Me movimentei bastante. Fizemos a ocupação virar uma ocupação preta, depois fomos para o Aparelha Luzia, centro cultural e quilombo urbano de São Paulo. O Aparelha foi criado pela ativista, artista, educadora e deputada estadual Erica Malunguinho. Evidenciamos as candidaturas de mulheres negras, principalmente a Erica e ela foi eleita. Estar neste movimento e na luta contra a criminalização do candomblé. Foi isto que eu fiz enquanto a Helenira estava dormindo. Nesta época fiquei pensando, cara eu sei tudo isto. O que que eu vou fazer? Continuei a pesquisar a Boa Morte e pensei na Tia Ciata [Hilária Batista de Almeida, com 16 anos, participou da fundação da irmandade na Bahia], que perseguida, veio para o Rio de Janeiro e acabou fazendo o carnaval. Quase tudo que a gente vê de carnaval foram conceitos da Tia Ciata. A ala das baianas é uma homenagem à irmandade. As passistas também, e elas são referências a esta mulher, durante o período fértil. E é aí que ela é perigosa, o período fértil da mulher é próximo do sangue. Pensei no sacrifício da Tia Ciata, o sacrifício das mulheres negras negligenciadas”, ressalta. 

Carnaval, democracia destroçada, o corpo deposto da mulher negra, o sacrifício da existência de uma, acontecimentos que conduziram Ana a viver na pele a emblemática figura da passista, na Vai-Vai, em São Paulo. Literalmente na avenida, ela rasga mais uma camada de sua pesquisa, complexificando para sempre a objetificação da mulher negra.

“Somos sacrificadas em prol da construção no país. Principalmente a figura da passista e como este ícone da identidade nacional carrega uma consagração ao estupro deste próprio corpo. Ao mesmo tempo é um fundamento da Tia Ciata, que relaciona a mulher negra, nesta fase fértil e jovem. Como que ela pode negociar finalmente. Pois ela está longe da morte e perto da vida. Ela negocia o sexo, ela negocia a festa, a alegria, ela negocia com o corpo. O corpo vira a própria arma bélica dela com a sociedade. E a passista é rainha de qualquer forma. Aquela para onde todos os olhos estão olhando. Ela é um sujeito. É muito difícil matar uma passista no carnaval. Tem muita gente olhando para ela. E aí está a ferramenta usada pelas mulheres da periferia. De tentar ser passista para garantir que não vai morrer. Uma garantia que você não vai ser condenada ao trabalho doméstico. Fiz o processo seletivo de passista mesmo, e aí volta o lado do antropólogo, né? Tudo para entender o que é isto. Este corpo criado pela Tia Ciata, pela irmandade. Pensando nas yamis, que também é uma figura da cultura e iorubá e funciona na atualidade. Esta zona de negociação. Consegui virar passista, curto muito esta obra, que se chama o Sacrifício Ritual”, conta a artista, que já teve a obra exposta no Can Serrat, em Barcelona, e na Bienal de Glasgow, Escócia. 

O Sacrificio Ritual, obra de Ana Beatriz Almeida já foi exposta no Can Serrat em Barcelona e na Bienal de Glasgow, Escócia
Foto: Arquivo Pessoal

Deitando novamente sua obra aos ritos de morte no candomblé, Ana dá seguimento ao sacrifício e vai fundo numa outra fase do ritual-performance. “O corpo da passista entrou em vários lugares. Toda hora alguma instituição brasileira pede este trampo. Aí é isso, é o corpo estuprado que deu origem à nação. Ela tem este poder que a Tia Ciata falou, poder de negociar que tipo de vida se vai ter. Na sequência vêm os fundamentos do candomblé. Por exemplo, na prática, você mata o frango. O frango tem uma função, daí eu fiz o tchiodohun, que é o rito de divinização do ancestral, na cultura Ewe. Eu peguei o corpo da passista, que no caso era o meu corpo mesmo, e botei numa canoa de madeira maciça e enviei este corpo para a pedra que tem o assentamento mais antigo das divindades femininas primordiais, Nanã, Olokun, Oxum e Iemanjá, e eu mandei este corpo para este assentamento que fica em Cachoeira, é o assentamento mais antigo do Brasil dessas divindades”, explica Ana, que com a obra faz uma reencenação artística do rito de divinização dos reis de Uidá e Daomé. O thiodohun consiste em colocar o corpo do rei morto em uma canoa que atravessa o rio que une o país des vives e o país des mortes, afim de que ele adquira poderes sobrenaturais.

Ao finalizar a obra O Sacrifício Ritual, algo parece de fato mover o tabuleiro dos Orixás. As confluências que não passaram despercebidas pela jovem artista agora lhe darão uma espécie de licença para explorar geografias mais profundas de sua ancestralidade.

“Logo depois que terminei o ritual fui para uma viagem curatorial que passou por Gana, Togo, Benin e Nigéria, na qual eu encontrei artistas que eram Ewe e jogaram Fa para mim. No jogo eles me falaram que, se eu cheguei ali, é porque devia ter feito um sacrifício para voltar. Disseram que sou do grupo de pessoas que não poderiam voltar para o continente depois da escravidão. Mas, já que eu tinha conseguido voltar, me questionaram se eu tinha feito algum sacrifício antes de chegar lá. E na hora eu pensei, claro que sim, fiz O Sacrifício Ritual. Mas eu precisei fazer outro sacrifício lá, para poder voltar à África. Me deram algumas opções de locais, depois fui saber que era onde estavam espalhados os Almeidas. Acabei chegando ao Benin, e lá conheci-os, uma parte deles, são a cara da minha família paterna de São Gonçalo. Meus tios são um a cara do outro. Quando nos encontramos teve um jogo de Fa para confirmar se eu era mesmo da família. Meu Vodoun é o mesmo que de meu ancestral que retornou ao Benin [Joaquim de Almeida, Zoki Azata], significa que sou muito da família. E tem umas brisas, minha função é de Bokor Visionaire, que significa aquele que tem a missão de comunicar o material com o imaterial, e o visível com o invisível”, revela.

Ritual de iniciação do corpo novo de Helenira, que se chama Onira, na Ilha de Itaparica, lugar sagrado de Baba Egun, na Gameleira, Bahia
Foto: Arquivo Pessoal

Dentro de tão amplo aspecto, a trajetória artística que passeia pela geografia ancestral vai se fortalecendo e ganhando novos sentidos. “Depois de tudo que vivi, ficou bem mais nítido, meu foco era a Nalda, irmã da Helenira. É ela quem está viva para sentir saudade. Foi assim que eu fiz Onira. Se você ver a fotografia, tem uma árvore enorme, eu fiz esta roupa como quem faz roupa de Egun mesmo, embora eu não possa me iniciar no candomblé brasileiro, daí depois eu descobri que é por conta detsa história do Vodun. Pois a lógica do candomblé é esta, quando você é iniciado no candomblé você está se reconectando com seus ancestrais. Como o meu ancestral acabou conseguindo morrer onde os avós deles morreram, não faz sentido me reconectar com os meus ancestrais aqui, porque de alguma forma eu posso voltar, e os meus ancestrais estão lá. Estão aqui também, mas a conexão mágica deles é lá.  Então, não faz sentido eu me conectar com eles aqui. Eu nunca fui iniciada no Brasil, mas aqui eu seria de Oya Balé, que é divindade que separa a alma do corpo, e é a divindade que cuida da roupa do Egun. A roupa que o ancestral vai vestir para vir falar com os ancestrais. Para falar com quem ficou sentindo saudade. Então, eu fiz a roupa, depois a gente foi para esta árvore na Ilha de Itaparica, é um lugar sagrado de Baba Egun, na Gameleira.  Uma igreja que foi construída em 1530. Uma Gameleira que é conhecida como Baobá brasileiro na memória da África. Ela cresceu em torno da igreja que estava em ruínas, agora a igreja é sustentada pela árvore. Foi lá que eu fiz o ritual de iniciação do corpo novo de Helenira, que se chama Onira. Onira é uma qualidade de Iansã que está relacionada com a borboleta, também está relacionada com os heróis que morrem no campo de batalha. Na verdade, é como se a borboleta fosse a alma de um herói que morreu num campo de batalha. O que as galerias querem comprar é isto, o registro de imagem destes rituais, entende? A luta tem um valor ético e estético inegociável. Porque ela, em si, já é o último recurso de negociação entre as pessoas e os sistemas”, termina Ana Bee.

Vídeo de Lane Bum em ode a Ana Beatriz Almeida

Por @ericamagni

Imagem e vídeo @lane_bum

Revisão: zé carol

Na mitologia grega, Hera estava com o peito cheio de leite e Zeus queria botar o Hércules, que não era filho dela, para mamar. Ela se negou a dar o peito pra um filho que não era dela. Então, quando Hera estava dormindo, Zeus vai lá, pega Hércules e encaixa no peito de Hera, que prontamente acorda, toma um susto e tira o peito rápido, e jorra leite no céu, formando a Via Láctea…

 

Cecilia Cavalieri é alguém que se transladou por díspares coagulações até chegar no título de quase formada, ou quase doutora em leite. O jorro de suas tetas foi tão grande, assim como o voo de suas ideias, que inevitavelmente chegaram à França, onde publicou, em língua francesa, o LA FEMME – o que ela não chama de livro e sim de dispositivo contracolonial de discurso filosófico. “Eu mudei todas as palavras nature (natureza) para a palavra femme (mulher), em um livro de bolso de 1995, chamado La Nature, de Frank Burbage”, conta Cecilia. Na segunda edição, a coluna Translação nos presenteia com uma tradução inédita da introdução do livro La Femme, assim como detalhes íntimos da pesquisa de Cecilia sobre o leite. Pesquisa esta que se encaminha para os contornos finais, já que ela deve defender sua tese de doutorado em breve pela UFRJ, ainda sem data marcada, pois se divide nos papéis de mãe, artista e acadêmica. “A maternidade é um ato político por si só. Ainda mais quando você é artista. Este corpo de artista que precisa gerir um corpo de criança, sendo o corpo da criança no contexto do Brasil, onde não há nenhum subsídio para que uma mãe exista. Não há creche pública para todos, quando a criança nasce você tem que entrar numa fila de espera. Entre outras questões, tipo o uso da fralda descartável, não entendia o peso desse descarte poluidor. Fui entender as estatísticas. Quando a Dora tinha 11 meses, eu entrei no doutorado. Estava em plena formação acadêmica e fui estudar também o aleitamento. Fiz uma segunda formação real, estava em plena concepção como mãe nutriz. Realizando a formação parental, fui ler quinhentos livros de pedagogia, entender a educação Montessori. Inclusive achei o fim da picada este esquema que prega uma autonomia para a criança. Aí você entende como esses processos são parte de uma construção de uma sociedade muito doente, que prega esta liberdade, como fala a Maria Montessori, uma ‘autonomia da criança’. Qual é a criança que tem autonomia? Não existe autonomia, e este conceito é um conceito que catapulta muito os outros conceitos liberais. Até projetos neoliberais do Estado… então, não existe autonomia”, argumenta Cecilia. E defende que é preciso enxergarmo-nos como organismos codependentes, para saltar do olhar comum, podendo então ser parte desta tese filosófica, que praticamente nos coloca de frente para uma lente macroscópica no cotidiano de uma doutora, mãe, mulher, artista, lactante.

 
Cecilia Cavalieri posa bravamente com a obra La Famme em sua casa no Centro do Rio








Link para baixar tradução em português inédita de trechos de La Femme https://ceciliacavalieri.com.br/a-mulher-trechos

Link para baixar o pdf original do livro La Femme em francês https://ceciliacavalieri.com.br/la-femme-download-pdf

O ponto de partida da pesquisa de Cecilia tem muito a ver com a filósofa ecofeminista Emilie Hache e sua coletânea lançada em 2016, o livro Reclaim: Recueil de textes écoféministes (Reclaim: Coleção de textos ecofeministas). “Conheci a Emilie em 2014, quando organizamos o evento Os Mil Nomes de Gaia (Evento idealizado por Déborah Danowski, Bruno Latour e Eduardo Viveiros de Castro e coorganizado por Alyne Costa, Cecilia Cavalieri, Felipe Sussekind e Juliana Fausto), ela era uma das conferencistas. Nós estávamos grávidas de dois meses. Ainda naquela fase de não contar para ninguém. Mas ela me falou sobre a gravidez dela, e eu contei sobre a minha, no jardim da Casa de Rui Barbosa. Ficamos amigas na hora. Eis que, em 2015, nasceram Dora [em maio] e Ferdinand [em abril]. Em 2016, ela lançou este livro que mudou a minha vida e, em 2018, fui para a França fazer a bolsa sanduíche com ela como minha orientadora, conta Cecilia. Ela enfatiza que foi a partir do livro de Emilie que encontrou um texto de Susan Griffin, chamado Où sont exposées conjointement et chronologiquement les idées de l’homme à propos de la nature et des femmes (Onde são apresentadas conjunta e cronologicamente as ideias do homem sobre a natureza e as mulheres).

Finalmente, Cecilia havia batido de frente com a problemática que faria uma ponte importante para um experimento literário até então inédito para ela e para muitos filósofos franceses. “O livro de Susan faz uma análise cronológica das ideias dos pensadores homens [cisgênero] em torno da natureza das mulheres [cisgênero]. Ela nos mostra que a ideia de natureza e a ideia de mulher são muito aproximadas, não só neste ‘mundo das ideias’, mas inclusive no mundo prático, este lugar que a gente perfura, penetra para extrair petróleo, que é a terra. Há muitas relações de semelhança entre o que se fala de mulher, a noção de mulher, e a noção de natureza. Ambas servem para fecundar. Aquela que nos dá comida, que nos nutre, que a gente precisa para nosso sustento. A que precisa ser fertilizada, todo este imaginário que vem de uma ideia de entendermos a mulher, e de entendermos natureza.  E aí, quando eu pego este livro, eu penso: e se eu fizer o teste literal desta hipótese? Se eu pegar os textos da história da filosofia e trocar todas as palavras natureza pela palavra mulher, o que acontece? Fiquei trabalhando por um tempo, procurando uma coletânea de textos em português que fosse suficiente. Não achei, tentei na coleção Os Pensadores, sugestão da amiga e filósofa Juliana Fausto, e fui lá atrás. Não rolou. Porém, com a coleção, eu acabei desenvolvendo um outro trabalho com vassouras e buracos, o Mundos em fricção – Exercício interespecífico de tradução de miolos, obra concebida em de 2018”, ressalta Cecilia.

Depois de pesquisar nos livros escolares e também não obter sucesso, Cecilia acabou tendo uma ajudinha de ninguém menos que Deborah Danowski. “Ela é uma das pessoas para quem dedico o livro LA FEMME. É uma filósofa super importante, que trabalha com negacionismo. Fundadora de linhas de pesquisa na PUC, como Filosofia Moderna, Metafísica, Novas Ontologias, Pensamento Ecológico. É idealizadora do evento Os Mil Nomes de Gaia. Um dia ela achou um livro de bolso da editora francesa Flammarion, uma coleção de livrinhos de bolso. Ela me mostrou e disse ‘talvez esse livro te interesse’. E, realmente, o livro se chamava La Nature (A Natureza), e para mim foi muito mais simples, porque eu escrevi o livro e fiquei trocando a palavra natureza por mulher. Obviamente, eu ria muito, rolava de rir. Mas, enfim, depois a gente vai lendo e vai entendendo que é engraçado por um lado. Mas, por outro lado, é tudo tão absurdo e ao mesmo tempo é perverso, é duro demais”, conta Cavalieri.

Audaciosamente, num belo dia de setembro, o livro LA FEMME foi publicado em Floriparis, pela editora Psémata [um selo artimanhoso da Cultura & Barbárie], em 2019. Com um curto orçamento, muito bem remanejado do valor oferecido pela bolsa da CAPES, Cecilia reuniu uma equipe de mulheres amigas para realizar um projeto grandioso: fazer uma piada urgente com os nomes mais clássicos da filosofia, ressignificando La Nature, de Burbage. Ela apenas trocou as palavras natureza por mulher, desde a introdução até o último artigo, que é de Spinoza, começando por Aristóteles. A diagramação do livro é de Marina Moros, da editora Cultura e Barbárie, e a revisão é da francesa Anne-Laure Blusseau, da editora Questions Théoriques. No total, deu para imprimir 400 exemplares e ainda fazer uma tarde de autógrafos na La Centrale 22. Depois do lançamento, a autora inicia um processo bastante divertido e libertário, quando começou a infiltrar alguns exemplares de seu LA FEMME nas principais livrarias intelectuais da cidade. “Inclusive o Bruno Latour me procurou por inbox no facebook, dizendo que estava deslumbrado e admirado com La Femme, que tinha ganhado um de Emilie Hache. E perguntou como poderia conseguir mais. Como não tem em circulação oficial, fiz chegar até ele 5 exemplares, conta.





Livro La Famme de Cecilia Cavalieri infiltrado na Librairie Philosophique J. Vrin em Paris


Além de natureza por mulher, Cecilia foi trocando todos os congêneres. “Troquei naturalismo por feminismo, natural por feminino… e aí depois eu descobri que este cara, o Frank Burbage, é importante, e que o LA FEMME tinha virado um sucesso entre os filósofos acadêmicos. Os nossos amigos franceses acharam muito ousado, isto porque eu estava tocando no cerne da existência do pensamento francês, debochando disto. Não adianta a gente só ficar pensando e fazendo os exercícios ecofeministas. Tive uma oportunidade de fazer uma interferência relevante, que chamo de uma intervenção do futuro na história da filosofia. Era muito incômodo estar ali enquanto brasileira que não tinha lastro ou berço, num contexto elitizado por si só. Eu, uma mulher latina que demorou 12 anos para conseguir um diploma de graduação. Sempre trabalhei muito, não pude me dedicar aos estudos imediatamente. Como é a realidade de muitas pessoas. E aí aconteceu este livro, eu o deixei em várias livrarias muito fodas de Paris, e também em Toulouse, quando fui falar na Université Toulouse Jean-Jaurès, a convite de Jean-Christophe Goddard. A grande jorrada/gozada é que não posso ser processada por plágio porque troquei todas as palavras e troquei o nome do autor. Em francês, não sou competente em traduzir filosofia, mas sou bem competente para avacalhar”, termina Cavalieri.









Alguns dados sobre a lactante pesquisa de Cecilia Cavalieri, por ela mesma:

em um laboratório de especulação científico-poética

durante 3 semanas de observação

vivi ao lado de quatro línguas

maternas

observei a decantação

a transformação

a decomposição

a degeneração

a disposição

dessas línguas no tempo

outrora

durante 30 meses de experiência leitosa e doméstica

na qual nutri minha filha

um corpo de filha

percebi que quanto mais ela falava menos ela mamava

o leite era sua primeira língua

a língua materna

as primeiras gotas de leite nascem com o bebê

a composição do leite se transforma com o bebê

os anticorpos são gerados a partir da comunicação

entre saliva & mamilo

estudos de imunologia clínica revelam que

uma vez que o bebê cai doente

o número de leucócitos aumenta no leite de sua mãe

há épocas em que o bebê precisa mais de açúcares

há épocas em que o bebê precisa mais de gorduras

há épocas em que o bebê precisa mais de proteínas

o leite as envia sob medida

nossa língua é uma derivação do leite

o leite é vivo

durante 3 semanas

em um laboratório de especulação científico-poética

vivi ao lado de quatro leites

maternos

ovelha – vaca – cabra – monika

vi que nenhum leite é branco

eles são todos uma variação de amarelo

vi que o leite de ovelha é mais gordo

vi que as moscas preferem a cabra

vi que o leite de vaca se tornou menos sólido que os outros

vi que o leite de monika produziu bolhinhas de ar

vi o nascimento de quatro luas

com padrões e desenhos diferentes

certa vez amamentei uma gata

ina era uma adulta e desprezou o leite que derramei em sua tigela

corpos celestes são corpos com tetas

a via láctea de uns é a via crucis de outres

há galões de pus nos ventres das crianças desmamadas do antropocenoas vacas já enviaram uma mensagem cifrada





Via Lactea – uma especulação cosmopoética’ (2019) é uma investigação indisciplinar em torno da noção de leite como língua e com trabalhos que atravessam a ecologia/economia dos corpos de leite que nutrem a vida contemporânea, partindo de uma observação doméstica: quanto mais minha filha fala, menos ela mama; o leite é sua relação mililítrica com o mundo; o leite materno é uma língua, é a língua-mãe. Trata-se de uma pesquisa experimental (constelações teóricas, imagéticas, escultóricas e sonoras) em torno da amamentação e do leite: não apenas sobre a relação mãe-filhx mas, no Antropoceno – em meio ao colapso moderno e climático –, uma questão cosmopolítica do feminismo multiespecífico que pensa as línguas não-negociadas com outras mamíferas e os sistemas de subalternização humana e não-humana envolvidos na amamentação prolongada e interespecífica. Neste contexto, como não fazer um paralelo entre a economia do leite na terra e a formação leitosa do céu ocidental?

Este vídeo é composto a partir de um timelapse feito da observação de 4 leites de fêmeas distintas: cabra, vaca, ovelha e monika (1 foto a cada 7 minutos, durante 3 semanas). Para a composição sonora, gravamos e manipulamos leites de diferentes densidades (karoline, vaca, cabra e ovelha) com hidrofones.”

Vídeo “Via láctea – uma especulação cosmopoética”

Assista: https://vimeo.com/370704714





Por @ericamagni

Arte @lane_bum

Revisão: zé carol