Logo Revista de Cultura

Primeiro livro do selo Acabamos, escrito pela poeta Carla Diacov, traz 13 títulos para atravessar mais um ano de pandemia, desespero e poesia, sem carnaval.

É com muita ousadia e alegria que estamos lançando o primeiro livro com curadoria do selo Acabamos, uma iniciativa da equipe da Coluna Translação para viabilizar publicações, a princípio digitais, por aqui mesmo, na plataforma do Revistas de Cultura. Nossa ideia é facilitar e simplificar ao máximo a execução de projetos literários de artistes LGBTQIA+, confrontando o excludente e inacessível mercado editorial brasileiro, muitas vezes restrito a públicos muito específicos.

Infelizmente, poder idealizar e realizar um livro ainda é um privilégio para poucos num país de artistes que convivem com uma severa e eterna crise cultural. Com essa proposta de viabilizar experimentos, o selo Acabamos prevê uma atuação pontual, no que vislumbramos como um pontapé inicial, um chute nas formas, luz à voz do que se pretende chamar de um “livro digital”, que existe enfim, sem seguir regras gráficas ou obrigações técnicas que demandam uma publicação tradicional.

Está sendo um passo importante para a coluna Translação. Estamos saindo da forma junto com quem nos lê, ou lerá no futuro. Sabemos que é uma grande responsabilidade carregar e projetar ideias de outres artistes. Não queríamos errar, visto que já acabamos. Assim, cremos que o risco do erro mora no passado, pois não se trata mais de uma possibilidade. Acabamos e agora queremos apenas propor soluções práticas para que livros nasçam de lugares impossíveis. Também sabemos que faz parte do crescimento da coluna romper com o formato tradicional do conteúdo apresentado. Achamos que acabar, e manter-se no fluxo dessa sensação, seria um bom caminho agora.

Cada edição da Coluna Translação traz um compromisso com uma tentativa nova de ampliar a vozes de artistes. Cada mês engendramos uma relação diferente, com pessoas diferentes, propostas diferentes, ímpares.  Desta maneira, acreditamos que nossa primeira colab, logo com a Carla Diacov, será um soco na boca do oco inerte que habita o mundo das ideias. Ela é uma poeta que nasceu em São Bernardo do Campo, felizmente já possui uma lista de livros incríveis lançados por editoras conceituadas no mercado literário. Agora, para nossa alegria, soma o coração fica aloprado ao seu currículo, um livro lançado por nós, um livro lançado por ela, um livro que nasce do simples desejo de fazer títulos. E este que chamamos de livro, e que foi carinhosamente batizado por ela como o coração fica aloprado, traz 13 títulos inéditos para atravessar essa pandemia sem vacina, num ano trágico para tantos seres sobreviventes até aqui. Esperamos que agrade!

Carla Diacov por Carla Diacov

Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975.

Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), Ninguém Vai Poder Dizer que Eu não Disse (Douda Correria, 2016), A Metáfora mais gentil do mundo gentil, (Macondo, 2016), Bater Bater no Yuri (livro online pela Enfermaria 6, 2017), A Munição Compro Depois (Cozinha Experimental, 2018), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (Casa Mãe, Portugal, 2017/Edições Macondo, 2020), : pescoço x sobreviventes (Garupa, 2021).

Por Érica Magni

& Equipe Acabamos

Verão 2021

Primeiro episódio foi gravado e construído a partir de texto e imagem publicados em nossa primeira edição, em agosto de 2020. O episódio traz a entrevista com o poeta Zé Carol, contando sua relação com Danill Kharms, além de uma tradução inédita do escritor russo que morreu em uma cela psiquiátrica. Joice Marino faz um experimento com o texto jornalístico, transformando o som em objeto poético para além da palavra.

Estamos felizes em anunciar, nesta primeira edição do ano, que a coluna Translação também será um podcast. Este primeiro episódio, que timidamente chamamos de “um objeto experimental”, é composto pelo texto da entrevista que realizei com o poeta Zé Carol e que traz a ilustração de Lane Bum, material publicado em agosto de 2020, aqui no site Revistas de Cultura.

Era o início de tudo, estávamos tateando linguagens e tentando saltar um pouco do que tradicionalmente se poderia fazer com a história de um poeta em transição que nos presenteou com uma tradução inédita de um texto russo. Fato é que para todes nós da equipe translação, Danill Kharms foi uma excelente porta de entrada, ou um alçapão de amplitude infinita, que nos deu abertura para outras alucinações, outros delírios mais graves ao longo do ano, inclusive este documento sonoro que subimos com muito orgulho e despretensão para a nossa plataforma no Spotify (siga-nos).

E foi com esta base de texto e imagem que a atriz Joice Marino, criadora do podcast, costurou uma narrativa sonora, nos convidando a mergulhar profundamente nas tramas de sua pesquisa sobre o som e o fluxo criativo, e desdobrando sentidos para além das palavras. Joice tenta e consegue subverter a sua própria mente (e a nossa também) nos caminhos de um teatro que se liberte dos adestramentos intelectuais.

Um rastro ruidoso pelo qual podemos nos aproximar da sua experiência íntima de criação, onde carne, vozes, números, ruídos e cores não parecem estar preocupados em cravar diferenças entre si. Partindo da imagem e do texto como estados de concentração, a atriz nos cria um estado de coisas em que nossas definições se confundem e avançam para além dos limites que traçamos. Neste estado então criamos, não delimitamos.

A atriz Joice Marino, que assina o Podcast Translação

Para finalizar com um tom mais pessoal, ressalto que conheço Joice há mais de uma década, e que esta artista em minha vida está como um místico totem de conhecimento experimental, a quem recorro sempre a fim de desviar-me das burocracias criativas, que poderiam me acometer com o que chamo de “doença de ataraxia poética”. Contra este mal que me assola, e creio que a todes poetas, recorro a ela. Está ali um antídoto poderoso, talvez minha única guru possível (risos). E é certo encontrar nela algum tipo de acolhimento eficaz, que flui naturalmente de sua experiência como corpo vagante no mundo. Não é à toa que seu animal interior é um javali. A maneira como ela faz seu câmbio intelectual prevalecer no caos é um frescor lenitivo na moleira de um recém-nascido, que dentro da bolsa sufocante de alguém, está cruzando um deserto árido, sem dar-se conta da travessia, e o deserto é o cotidiano.

(Eu, Lane e Zé) Damos boas vindas a Joice, que vem fazer parte oficialmente da equipe Translação, onde por aqui costumamos “brincar” de dizer que ACABAMOS: este é o nome de batismo deste movimento criativo que nasce entre nós, com nome trágico e engraçado.

E de fato, tivemos que desabar e acabar muitas vezes este ano durante a produção da coluna translação, desconstruir para recomeçar, a fim de alcançar uma viagem potente de sentidos, de novo, de novo e de novo, até quando necessário for preciso ocupar este espaço no site Revistas de Cultura, que amigavelmente hackeamos, trazendo conteúdo que deseja ser útil no sentido de aguçar o “se perder” a cada nova edição, inspirades por tantes artistes geniais que passaram e passarão por aqui em 2021.

Clique para ouvir o podcast

Desejamos um feliz ano novo para todes. Ouçam e viagem com o Podcast Translação, feito por Joice Marino especialmente para nós.

Por @ericamagni

Arte @lane_bum

Revisão: zé carol

Verão 2021

Feitura do feitiço

TE TRAGO TUDO QUE SEI

ÁGUAS LIMPAS NASCEM ALMAS LIMPAS

ENTERRANDO PRAZERES OBSCUROS

A LANÇA DE PRATA ATERRORIZA

OS IGNORANTES E ALÉM DE TUDO

SOBRESSAI A VENTANIA

E ALÉM DE TUDO

SOBRESSAI A VENTANIA

TE TRAGO TUDO QUE SEI

ÁGUAS LIMPAS NASCEM ALMAS LIMPAS

Edição hackeada por:

@bitch_thay [modelo e poesia]

@rafulano [fotos]

@lane_bum e zé carol [mixagem]