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Nós, Yanomami, estamos muito preocupados porque os brancos só pensam em estragar a Terra, só sabem destruir a floresta. Eles não têm amizade por ela, não a querem. Da profundeza do seu chão só arrancam coisas para fabricar suas mercadorias, depois as queimam e o mundo se enche de fumaças que viram doença xawara para todos. A floresta também adoece dessas fumaças, suas árvores morrem, bem como suas águas e seus animais. É assim que entendemos as coisas. Por isso, nós Yanomami, estamos tão inquietos. Nós perguntamos: “Por que razão os grandes homens dos brancos não falam sabiamente entre eles e continuam querendo maltratar a Terra?” Eles já têm muitas mercadorias, é suficiente! Apesar disso, querem ainda tirar da terra todas estas coisas brilhantes, pedras e metais, com os quais fabricam suas coisas preciosas. É isso que preferem entre tudo; é por causa disso que destroem e sujam nossa Terra!”

por Davi Kopenawa Yanomami publicado originalmente no livro Povos Indígenas no Brasil 2006-2010 (ISA)

Ilustração do livro Diário de Área: memórias de uma viagem às terras Yanomami
Obra que Vera Ifaseyí chamou de As lágrimas do Xamã

A luta dos Yanomami pelo direito à terra ganhou uma força a mais com o trabalho delicado de Vera Ifaseyí, que acaba de lançar, de maneira independente, o livro Diário de Área: memórias de uma viagem às terras Yanomami, onde ela traz ilustrações do tempo em que conviveu com a etnia em terras sagradas da floresta amazônica. Como se sabe, o território está sendo destruído pelo atual governo que liberou o garimpo, e, por isso mesmo, essa edição da Coluna Translação se faz tão urgente. Também é com muito orgulho e gratidão que nos despedimos do site Revistas de Cultura, fechando um movimento completo de translação robusto (ficamos um ano por aqui), com uma série de entrevistas e podcasts. Obrigada por nos acompanhar, seguimos na órbita desembarcando numa breve e próxima estação ainda inimaginada. Esta edição traz também um afetuoso registro audiovisual inédito e exclusivo com a artista, que é uma verdadeira caixa de sabedoria fluida, repleta de ancestralidade, composta por conhecimentos de diversas culturas e povos, ideias e conceitos vitais, que existem antes mesmo de eu e você chegarmos até aqui.  

Entrevista com Vera Iafaseyí para a Coluna Translação

VERA IFASEYÍ nasceu no Rio de Janeiro em 1958 e mora em Roraima há quase 20 anos.  É artista visual, técnica em enfermagem e formada em design. Foi professora de artes em organizações sociais no Rio de Janeiro e em escolas da rede municipal de Boa Vista, e também atuou na saúde indígena com a população Yanomami, entre 2005 e 2007. Além disso, foi integrante do Fórum de Cultura de Roraima e fundou o Núcleo de Estudos Afrocentrados Ojúomim da Amazônia, onde realizou encontros e atividades de valorização da cultura negra em Boa Vista, entre 2010 e 2016.

A artista multidisciplinar Vera Ifaseyí no quintal de sua casa em Boa Vista Roraima

O encontro da artista com a realidade indígena brasileira foi a partir de uma jornada que ela chama de reencontro consigo mesma. Após o falecimento de sua mãe, no início dos anos 2000, ela resolve partir para novos rumos, sem deixar de considerar a prática do desenho, algo que a acompanha desde a infância.  

“Saí do Rio de Janeiro na intenção de recomeçar a vida em Minas Gerais, na companhia do meu filho mais novo, Raphael, mas segui para o extremo Norte do Brasil, Roraima, para visitar meus dois irmãos e familiares que lá viviam. Fiquei. Criei morada em Boa Vista. Precisava trabalhar. Dei aulas de artes em escolas públicas e mais tarde descobri a possibilidade de atuar no campo da saúde indígena, por intermédio da Fundação Nacional da Saúde e Missão Catrimani. Assim, reativei a minha formação, há muito tempo não exercida, como técnica em enfermagem”, conta Vera. 

Uso do yãkõana, caneta esferográfica preta sobre papel, Roraima, 2021.

Em 2005,  a artista embarcou numa intensa experiência: sair da cidade e viver dentro da floresta, a Floresta Amazônica viva em todos os âmbitos e mergulhou no profundo íntimo dos mistérios que nela habitam. 

“Passei a viver o cotidiano indígena com espaço e tempo outros, onde tudo se conecta. Os Yanomami (re)existem no Norte do Brasil e na Venezuela com seus costumes, seus saberes, suas lutas, com respeito à natureza e aos seus ancestrais. A Floresta Amazônica oferece tudo aos seus habitantes e ao mundo: os igarapés, igapós, os rios, os animais, sua terra… Como não sei fazer nada sem desenhar, entre os intervalos do trabalho, com papel A4 e caneta esferográfica preta, registrei minhas melhores memórias e tracei os diversos aspectos do cotidiano que vivi com o povo Yanomami. Compartilharei aqui, como forma de agradecimento e respeito a esse ‘povo encantado’, essa viagem ilustrada e, também, contada no meu Diário de Área”, ressalta Vera. 

Xamanismo, caneta esferográfica preta sobre papel, Roraima, 2021

 Nas páginas que vão passando, Vera constrói uma belíssima condução através de suas imagens a uma conversa sincera sobre estética, prática de desenho e criação de novas nuances. Nos ensina como elaborar um inesquecível trabalho de observação sobre o dia a dia de uma comunidade Yanomami. Com apenas caneta bic e papel registrou grandes acontecimentos e também a tradição da rotina, com a mesma sensibilidade e intensidade de envolvimento artístico, algo que nossos olhos podem finalmente celebrar nesta publicação. Os traços nos convidam a dançar a mesma música, sentar no mesmo chão, comer junto, e também fazer o exercício de imaginar como é sentir o peso de fazer parte de uma etnia ancestral, ameaçada de extinção pelo sanguinário estado que pretende revirar o solo considerado sagrado em busca de minérios. O livro tem coordenação editorial de sua filha Luana Dias e projeto gráfico e diagramação da artista visual Ana Clara Tito.

Foto do livro Diário de Área: memórias de uma viagem às terras Yanomami

O livro de Vera é um portal físico para se debruçar, adentrar, e se tivermos coragem, fazer  ressoar as injustiças a que são submetidos os povos originários no Brasil. E transformar em arte e ativismo a amarga revolta de conviver e compactuar com uma sociedade hipócrita, que mantém no poder brancos que matam indígenas todos os dias. Para além de toda a infinita dor, o projeto também nos transporta imediatamente ao contato íntimo com a preciosa e urgente existência destes seres, que já viviam muito bem, aqui no continente, antes dos brancos colonizadores, mal intencionados, aportarem suas caravelas cheias de doenças, que os Yanomamis denominam de “epidemia xawara”. 

O livro e outras obras de Vera serão tema de uma incrível exposição no SESC Roraima, chamada Pegadas Atemporais – Uriki Hami Ya Mayo Kohipi, que começou dia 11 junho, e vai até 11 de outubro. Aberta para a visitação do público, a expo trará cerca de 40 obras, entre ilustrações e instalações de madeira talhada, da artista que compõe mais de 15 anos de trabalho com materiais e técnicas múltiplas, como tecelagem, escultura, estamparia, entre outras.

Vera Ifaseyí na montagem da exposição Pegadas Atemporais – Uriki Hami Ya Mayo Kohipi no Sesc Roraima
Exposição Pegadas Atemporais – Uriki Hami Ya Mayo Kohipi aberta ao público com todas as medidas de segurança respeitadas
Sesc Roraima abre as portas para mais de 40 obras de Vera Ifaseyí até o dia 11 de outubro
Raposinha Yanomami parindo, caneta esferográfica preta sobre papel, Hakoma, Roraima, 2009. 

A artista é iniciada no candomblé de Ketu há 30 anos e realiza atendimentos espirituais em sua casa-terreiro, compartilhando seus saberes ancestrais e de cuidado integral. Com seu primeiro livro, Vera Ifaseyí deseja contribuir para a visibilização, o fortalecimento e o reconhecimento do povo Yanomami, por meio da sua arte. O projeto foi apoiado pela Lei Aldir Blanc, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e do Fundo Estadual da Cultura de Roraima. Como forma de agradecimento e fortalecimento tão urgente nesse momento para o povo Yanomami, parte do valor será direcionada a Associação Hutukara Yanomami, em Boa Vista, Roraima.

Intimidade, caneta esferográfica preta sobre papel, Missão Catrimani, Roraima, 2006.  

Ficha técnica do livro

Ilustrações e textos – Vera Ifaseyí

Coordenação Editorial – Luana Dias @luanaasdias

Edição – Luana Dias e Érica Magni @ericamagni

Revisão – Dandara Ribeiro @criptopoeta

Projeto Gráfico e diagramação – Ana Clara Tito @aclaratito

Produção Executiva – Luana Dias e Rafael Pinto @rafaelppinto

Fotos do livro @leviitando

Fotos da exposição: Levi Damasceno

Serviço Exposição Pegadas Atemporais – Uriki Hami Ya Mayo Kohipi

A exposição ficará disponível na Galeria de Arte Franco Melchiorri (Sesc Mecejana)  para visitação até o dia 11 de outubro, das 8h às 12h e das 14h às 18h, de segunda a sexta-feira. 

Sesc Roraima (Mecenaja) –  R. João Barbosa, 143 – Mecejana, Boa Vista – RR, 69304-335

Telefone: (95) 3212-2800

Por Érica Magni

Outono, 2011


Retrato de Bianca Kalutor feito com fogo e escarificação no metal por Lane Bum
Retrato de Bianca Kalutor feito por lane_bum

Não há o que Bianca Kalutor já não tenha testemunhado nesta vida. Conversar com ela é como ir rasgando, uma a uma, as mentiras que nos contaram. É insano tentar acomodá-la em um espaço convencional, assim como tornar o discurso desta artista algo simples, embora esteja o tempo todo dizendo claramente o que tem que dizer. É preciso ter coragem para compreender todo universo que pulsa de sua existência. É extrema, sim, muito mais do que todes nós juntes poderíamos imaginar. E para entender Bianca é preciso ir muito além da palavra, códigos, totalidades. É preciso andar com ela pelas mesmas vielas, nas mesmas calçadas que ela andou.

No entanto, é mesmo com a palavra que vislumbramos contar essa história, através de um documento minucioso, que contém todas as informações necessárias para chegarmos a um lugar comum com Bia. Um manifesto inédito, que publicamos hoje, num dia tão despretensiosamente calculado. E lançamos também uma chamada pública que batizamos de UM CHÃO PARA BIA, que traz um tema urgente para esta artista: moradia. Assim, com bastante pressa, chegamos à 4ª edição da Coluna Translação, com a sorte de poder ainda entrevistar uma artista tão importante na cena Queer contemporânea.

Clique na imagem para ser direcionado ao link da chamada pública Um Chão Para Bia

Quem ainda não conhece Bia, provavelmente irá conhecer em algum momento, e talvez não tenha sido ou será uma experiência tão agradável, mas com certeza transformadora. Bia não vai morrer mais, ela está em todo lugar. Bia é um artefato de fogo, uma flecha em chamas, uma navalha certeira, pronta para desarmar os discursos mais contundentes sobre o que é existir.

Atualmente com 34 anos, ela contraria as estatísticas: quantas travestis você conhece? Bia, por estratégia, ainda está viva, e as pessoas chegam a se espantar, se perguntam como ainda seja possível.  Uma artista negra, travesti, abandonada à própria sorte na infância, que passou por abrigos públicos, unidades de ressocialização, prisões, habitou na solidão mais profunda, respirou nos lugares mais bizarros, negociou com seu corpo, morou nos mais pútridos becos corrompidos pelo preconceito. Teve sua vida nas mãos de muitos psicopatas do Estado, os que são pagos para torturar corpos negros, corpos trans. Negociou, trapaceou, sobreviveu.

Aqui, em uma metáfora literária canônica, Bia poderia ser a poeta Vírgilia, que acompanha Dante até o inferno e faz um tour pela memória deste país racista que aniquila suas próprias filhas pretas. Um inferno bastante real, um caldeirão que não parece ter fim para Bia e para muitos – a maioria de nós. Bia está viva, mas muito vulnerável, já que ainda luta por um chão, por acolhimento, afetividade, concretude, longevidade.

Quer poder ter um cachorro alto correndo no quintal, ter filhos, ter plantas, desejos básicos. Através da luta de Bia vamos poder contribuir para mudar uma história que se repete, mas que também irá ecoar aos quatro cantos do mundo. Até quem sabe chegar na lua.


Eu passei por muitas situações, muitas questões na minha vida, que eu acho que não tenham sido o suficiente para eu entender como é que é o mundo. Acho que a gente não tem que entender como é o mundo. Porque a gente é só viver. E aí isso pra mim se torna bizarro, torna-se bizarro porque eu não vivo, eu interpreto. Você entendeu? Eu não vivo. Quando eu vivo a minha espontaneidade… Eu procuro me preservar, porque minha espontaneidade não é ainda vista, não é ainda comentada. Agora, neste momento, que as pessoas estão notando, estão falando, estão procurando saber sobre pessoas trans, estão querendo na verdade encontrar talentos para explorar. Só que na verdade a gente não vem desse lugar. A gente não vem desse lugar que vai ser um talento. Hoje eu me descobri artista. Minha consciência como ser artista vem já de anos, só que não necessariamente eu sou “reconhecida”. Eu me reconhecer como artista pedia requisitos, porque a palavra artista é para quem já havia preenchido os requisitos. Hoje não, hoje eu sei que meu corpo é arte. Eu ser viva é arte. Eu me vejo sendo interpretada na televisão, eu me vejo sendo interpretada na rua. Eu me vejo sendo interpretada. Ou, se não é isso, é o contrário: eu estou interpretando todas essas coisas. Você entende o que eu estou querendo te dizer? Quando eu acordo, que eu me maquio, quando eu “transpasso uma heterossexualidade” por conta da passabilidade social feminina. Hoje eu entendo o que é ser a mulher, aí eu fico num lugar muito venenoso da coisa. Porque eu saber como é ser a mulher é triste. Que hoje me faz querer dizer que não, eu sou a travesti, e a travesti é diferente da mulher [cis] heterossexual. Eu afirmo isso por conta da política, porque há uma política que enquadra todos nós. Eu sou artista e sou também uma ativista. Eu não posso lutar sua luta no sentido de vida, porque não é minha história de vida. Eu posso falar, posso divulgar sobre a sua luta, mas eu não vou poder lutar sua luta. A minha luta é de um lugar de empregabilidade. De empregabilidade que nos falta. De possibilidades sociais. De proteção. Lei. Lei de proteção.

(Trecho da entrevista de Bianca Kalutor concedida a Érica Magni para a Coluna Translação)

Por @ericamagni
Arte @lane_bum

Assinam o manifesto:
Texto de Bianca Kalutor
Edição do texto: zé carol
Arte: @lane_bum

Assinam as peças da chamada pública:
Vídeo: @caio_d_arte
Design e Direção de Arte: Wolmin Dahgrota / DgHorizon.cc

Ana Beatriz Almeida cria corpos ancestrais para desaparecidos políticos negros que foram mortos na ditadura e nos leva a uma profunda reflexão sobre o universo simbólico da morte na cultura afro-brasileira

A luta não se negocia, e tendo já dito com o próprio corpo – este que é revestido de legítimo material bélico, com a própria pele em chamas por tudo – está quem ressalta aos nossos olhos e ouvidos: A luta não é negociável, e não se vende a memória”. Vamos assim, de maneira trôpega, acompanhando o movimento das omoplatas, tateando esquinas do tempo, que se dobram para fora do pensamento eurocêntrico, diferente do que nos ensinaram nas escolas. Ainda de mente imatura, vamos ensaiando cuidadosamente embarcar na obra de Ana Beatriz Almeida, uma artista múltipla e apaixonante que nasceu no ano de 1987, no bairro do Fonseca, em Niterói – RJ.

Ela, que é uma estudiosa sobre a morte e iniciada na religião Vodoun, nos deu a honra de ser nossa entrevistada na terceira edição da Coluna Translação. É um alento poder ouvir Ana Bee, batizada carinhosamente por esta coluna como a nossa Abelha Rainha. É precioso imergir em suas mágicas construções e perceber como é bonito redescobrir o desejo de aprender outros desejos, outras narrativas, que não passem pelas mãos brancas da história.

“Eu criei entidades para desaparecidos políticos que tiveram seus corpos sumidos pelo Estado. O trabalho considera essas pessoas que lutaram pela democracia e eram negras. Então, na verdade, elas estão lutando numa luta contínua que vem desde a escravidão. E assim, acabam vindo para aconselhar a gente como forças atuais, poderosas, que impactam o porvir. Tudo isto aconteceu em 2016, durante o impeachment da Dilma. Ainda não vendi estas obras no Brasil, é uma performance ritual e o que crio são entidades”, antecipa Ana Beatriz, sobre a obra Kalunga, que dá inicio ao segundo ciclo de danças de cura, criadas a partir de ritos de morte do candomblé do Recôncavo baiano.

O projeto é uma parceria com o artista Thiago Consp e a cineasta Luara D, onde Ana Bee desenvolveu rituais de transição para duas personalidades vítimas da tortura na ditadura militar no Brasil. Numa instalação-rito, percorre-se um trajeto composto por três fases onde imagem, corpo, texturas e cheiros guiam o público através de um rito de passagem. Nesta travessia, o mar aparece como metáfora para a morte. Entre sensorialidades, fotografia e videoarte, o público é introduzido com beleza profunda e cuidadosa ao universo simbólico da morte na cultura afro-brasileira. Guiada por duas vertentes distintas da resistência política da época: o líder operário da greve na Fábrica de Perus, João Breno, e a estudante negra que abandonou o curso de letras da USP para aderir à guerrilha do Ararguaia, Helenira Resende Nazareth – a quem Ana nitidamente cultiva uma ligação ancestral de resistência que virá ser o foco principal deste trabalho. Através de Sumaia Leite, uma amiga que já sabia da pesquisa em andamento, Ana conheceu Helenalda Resende Nazareth, que, infelizmente, ainda em 2015 buscava o corpo da irmã assassinada pela ditadura.

“Sem um corpo não há crime, eles não querem encontrar o corpo, pois um corpo é uma evidência de um crime bárbaro com magnitude suficiente para devastar quem ficou aqui sentindo saudade. Eu quis dar algo para esta irmã, era o mínimo que eu podia fazer naquele momento”, relembra.

A obra Kalunga, que dá inicio ao segundo ciclo de danças de cura, criadas a partir de ritos de morte do candomblé do Recôncavo baiano
Foto: Arquivo pessoal

Sua paixão pela pesquisa sobre a morte se deu por um acaso profissional, embora já fosse engajada desde os 17 anos na prática do butô, dança que surgiu no Japão pós-guerra. Foi só em 2010 que Ana soube da existência da Irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte.

“Cheguei no município de Cachoeira sem querer. Na verdade, fui para estudar tecidos de santo, através de pesquisa antropológica para uma ONG. Me falaram desta antiga irmandade, provavelmente o primeiro grupo feminista abolicionista da América Latina, que se instaura por volta de 1820 em Cachoeira. Lá foi o local que recebeu o maior número de pessoas durante a escravidão. O mais louco é que eu nunca mais parei de ir lá e nem de pesquisar sobre isto. O tema da minha última obra se chama o Sacrifício Ritual, e fala justamente sobre este corpo ancestral que criei para Helenira Resende, a única mulher negra do curso de Letras da FFLCH-USP, foi torturada por Sérgio Fleury na ditadura. Depois ela foge para o Araguaia e vira líder de destacamento de tiro.  Helenira morre em 1972. Ela merecia um portal preciso de comunicação, porque a vida dela significou muito, é urgente recordar esta existência. O trabalho quer relembrar que ela foi a filha de um dos mais antigos médicos da cidade de Nazaré das Farinhas, provavelmente um dos primeiros médicos da Faculdade de Medicina da Bahia, e que era comunista como o meu avô era. Tem umas narrativas, uns deslocamentos que se repetem, e justamente é esta a lógica do candomblé”, explica Ana.

Com uma ternura ácida e irreverente na maneira de doar-se, a artista tece uma infalível trama, de liga potente, capaz de transformar o conhecimento de sua ancestralidade em um verdadeiro presente para nós. A partir dos olhos dela, a lógica do retorno, junto com as dobraduras do tempo, vai nos ensinar o que ninguém nos contou, mas precisávamos finalmente saber. Ana é capaz de mover a energia da morte através de ritos de renascimento e também transitar entre mundos desconhecidos através de suas performances, baseadas em experiências profundas de autoconhecimento. Sua pesquisa e seus trabalhos lançados nos dão fortes indícios de que é inútil tentar separar a linha da vida e da morte, e esta dedicação virtuosa tem levado a artista pelo mundo afora.

Foto da série O Retratista de Nicolas Soares

Ela foi curadora convidada da Bienal de Glasgow 2020, é mestre em História e Estética da Arte pelo MAC-USP e doutoranda no King’s College (Reino Unido). Depois do final de 2018 e início de 2019, realizou workshops em instituições africanas e europeias com sua pesquisa sobre novas ferramentas de crítica de arte contemporânea da África e Ritos de ascendência africana (Instituto ANO – Accra / Gana, Zinsou – Cotonou / Benin, Tate Modern-London /Inglaterra, CCA- Glasgow / Escócia, KM Institute for Contemporary Art- Berlin / Alemanha).

Dotada de uma paciência também irreverente, a artista segue esmiuçando para nós a dinâmica dos ritos com origens no candomblé, e nos empresta conhecimento para avançar, fazendo o exercício instigante de pensar conosco sobre o mercado de arte brasileiro, que, ainda muito atrasado, continua excluindo cinicamente artistas negres, através da lógica do racismo estrutural de uma elite branca defasada.

Na militância artística, Ana desenvolve um brilhante trabalho com a 0101 Plataform, onde atua há um ano como curadora, captando, projetando, apoiando grandes artistas contemporânies, proporcionando visibilidade, lutando por equidade. Metaforicamente, cumpre o papel da águia bravia, protetora de seus filhotes: não negocia suas obras, nem as des artistas que representa, sem que haja uma política de reparação, ações afirmativas em relação à porcentagem de vendas das obras destes artistas negres.

“Você tem os odus, como se fosse a cabala dos iorubás, mas ela também existe nos Ewe, produzir estas divindades em forma de ritual vai de encontro com o sentido de produzir novos Orixás. Provavelmente a Helenira é um Orixá meu. Assim é, um ori que tem uma trajetória próxima à minha. Que eu estou cuidando com carinho para ela não ser esquecida. Querem que ninguém saiba que Helenira existiu, mas eu sei que ela existiu.  E aí, olha a curva do tempo se formando, esta obra está sendo desejada por grandes galerias aqui no Brasil. Queremos vender, mas não em valores que repitam uma vulnerabilização estrutural. Tem coisa que não pode ser negociada, a luta não tem preço. Você não negocia a luta, a vida dela já foi roubada, já foi extirpada. Até hoje ninguém sabe cadê o corpo de Helenira, eu não posso simplesmente vender o ‘corpo’ dela, né? A construção destes ritos vem daí, produzir novos Oris. Quebrar a lógica do sistema. Somos 1% no mercado de arte, ou menos, é um dado triste e cruel, estamos bem ligados sobre a perpetuação destas práticas, queremos reparação”, diz Ana.

A militância nos campos da arte e da política foi inevitavelmente inspirada pelos avós maternos de Ana. “Da minha avó [que costurava para drag queens] eu herdei o desejo de ser artista, do meu avô, o chamado urgente de lutar contra injustiças. Ele participou da Var Palmares, um braço da luta armada no Brasil. Era boxeador, depois foi diretor da Central dos Bondes, durante a ditadura permaneceu clandestino com a família”. Para a artista, o universo que lhe sobrava ainda criança era o cotidiano de uma casa afetada pelo medo de perder a liberdade democrática, este foi um fator marcante para encadear o desconhecido e transformar agonia em arte.

“Minha mãe sofreu muito com ansiedade infantil. Imagina uma criança de oito anos que vive nervosa pois ela acha que o pai irá desaparecer. Esta noção de um possível sumiço político foi um trauma. E aí usarei a lógica iorubá para pontuar. Você é a sua mãe e sua mãe é você. O seu óvulo estava sendo formado na no útero da sua avó, então você e sua mãe têm mais do que uma raiz. Ela nunca me falou sobre isto claramente, foram coisas que eu descobri muito tempo depois. A ansiedade dela sempre foi visível. Angústia com comida sempre foi visível. Nunca entendi direito de onde isto vinha. Eu sabia que tinha a ver com o momento em que meu avô estava clandestino, mas eu nunca soube em detalhes. O Natal na minha casa era uma loucura. Minha avó adorava fazer a ceia, minha mãe usava os tecidos africanos na mesa e meu avô gritava que éramos iludidos”, relembra a artista.

Ainda em Niterói, num universo em que ela não se encaixava, inclusive por ser uma das únicas alunas negras da escola, a artista sentia que aquele ali definitivamente não era o seu lugar no mundo.

“Queria sair deste lugar. Eu não clara, nem branca, não tinha o estereótipo da Malhação. Não tinha vocação pra ser uma Juliana Paes. Esteticamente eu era negra. Não tinha saída para mim, eu não ia ter uma adolescência ok. Eu era esquisita, eu era vista como ‘aquela aluna negra’. Queria saber como seria viver num lugar diferente. Então prestei vestibular para USP, para cursar tecnologia têxtil, mas tinha algumas atividades artísticas e de engenharia. Fiz Tecnologia Têxtil, que é o atual Têxtil e Moda. Eu quis também ir à São Paulo para fazer CPT (Centro de Pesquisa Teatral) e trabalhar com Antunes Filho”, conta.

Outro ponto crucial para alçar voos maiores foi descobrir a verdadeira e brutal história da colonização, através de uma viagem com a mãe na infância. “A minha mãe era muito de boa, ela fazia umas mensagens subliminares comigo, é muito boa pedagoga, não precisa dizer que está fazendo uma coisa para ela fazer a coisa, é canceriana e muito manipuladora. Quando eu fiz seis anos ela me perguntou: você quer uma grande festa ou viajar pela Bahia? Obviamente eu falei que queria viajar. E a gente fez o que eu nunca vou esquecer, uma viagem que ia de Abrolhos, passando por Arraial D’ajuda, Vera Cruz, no primeiro lugar onde os portugueses chegaram, até Salvador. Ela queria fazer esta viagem independente do que a escola iria me contar nos próximos anos. Ela queria que eu visse como meus próprios olhos como se deu a colonização, me transformando para sempre”, conta Ana.

Já estabelecida na cidade de São Paulo, sua vocação artística gritava cada vez mais alto, sobrepujando a rotina acadêmica e seus métodos de pesquisa dentro da USP. Ana precisou reconsiderar o rumo de sua pulsante jornada de descobertas.

“Eu queria ser artista, mas eu não queria assumir. Virei antropóloga, aí durante o período que eu estava pesquisando a Irmandade Nossa Senhora da Boa Morte, eu percebi que eu ia ser muito escroto publicar sobre aquelas mulheres. Elas me contaram várias coisas íntimas dos rituais. Liberando para mim coisas muito sérias e importantes. Se publicasse dentro da antropologia, iria instrumentalizar aquele conhecimento que estava sendo confiado a mim. Então, resolvi mudar de antropologia para arte e aí cheguei aqui onde estou, uma pesquisa que já dura quase dez anos”, ressalta.

De tal modo, encontrando seu lugar no mundo, a artista estabelece uma relação afetiva de ancestralidade com a comunidade onde nasceu o candomblé. “Lá é onde tem a igreja de onde saíram os três primeiros terreiros mais antigos, Gantois, Casa Branca e o Ilê Axé Opó Afonjá. Elas tinham uma igreja na Barroquinha, que foi queimada em 1820 pelo Governo da Bahia. Na frente tinha os ritos católicos. E, nos fundos, os africanos e afrodescendentes podiam cultuar suas tradições. Sem interferência, por conta da fachada da igreja católica. Esta irmandade se organizava com o intuito de promover um funeral justo para os escravizados. Antes da irmandade havia uma deposição dos corpos das pessoas escravizadas na rua. Se você fosse um escravizado sem família, se você morresse trabalhando, não teria um funeral. Você era só uma mão de obra, e como o corpo estava desprovido de alma, eram jogados na rua, provocando desequilíbrio psicológico na população escravizada. Então a Irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte se organizava em torno de fazer um ritual justo para aqueles que morriam em situação de escravidão, elas também adquiriram a liberdade de outros escravizados para que eles não morressem dessa forma”. 

Outra análise pertinente da artista questiona o conhecimento detido pelos antropólogos sobre os ritos de candomblé. “Acontece que depois desta uma década estudando a Irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte para a Unesco, como uma pesquisa da USP, sabendo muito, pois elas se abriram demais para mim, eu fui realmente abraçada pela comunidade a ponto de não conseguir publicar coisas sobre elas, sem elas. Na minha defesa da dissertação mesmo, trabalho com duas irmãs da Boa Morte. É uma disputa de narrativa mesmo da antropologia. Os antropólogos são os que detêm grande poder, grande conhecimento sobre o candomblé. E na maior parte eles são estrangeiros, como Pierre Verger, Roger Bastide, nenhum deles é mulher, nenhum deles é negro, e eles são de cânones do candomblé. Esta pesquisa é um trabalho de transformação, compreensão e generosidade. A irmandade é um grupo feito só por mulheres negras e existe até hoje. Falando com você fica bem nítido para mim que a 0101 Platform, vem desta inspiração. Você tem estas mulheres que se organizam em uma estrutura, que permite tudo, permite a vida. Elas se organizavam nesta estrutura da igreja, na verdade você tinha ali muitas etnias, e elas possibilitavam que eles pudessem cultuar seus ancestrais, qualquer um que tivesse um culto, podendo ser Zulu, Jejes ou Bantus. Enfim, eles podiam cultuar seus ancestrais, que é uma das coisas mais importantes, né? O direito à ancestralidade. É isto que tirava a humanidade das pessoas. Então a organização destas mulheres é justamente construir um lugar onde se podia cultuar estes ancestrais”, conta. 

A trajetória política de Ana ganha mais fôlego em 2016, onde passa a atuar diretamente na Ocupação Preta, da Funarte. “Depois do impeachment ficou tudo muito estranho. Me movimentei bastante. Fizemos a ocupação virar uma ocupação preta, depois fomos para o Aparelha Luzia, centro cultural e quilombo urbano de São Paulo. O Aparelha foi criado pela ativista, artista, educadora e deputada estadual Erica Malunguinho. Evidenciamos as candidaturas de mulheres negras, principalmente a Erica e ela foi eleita. Estar neste movimento e na luta contra a criminalização do candomblé. Foi isto que eu fiz enquanto a Helenira estava dormindo. Nesta época fiquei pensando, cara eu sei tudo isto. O que que eu vou fazer? Continuei a pesquisar a Boa Morte e pensei na Tia Ciata [Hilária Batista de Almeida, com 16 anos, participou da fundação da irmandade na Bahia], que perseguida, veio para o Rio de Janeiro e acabou fazendo o carnaval. Quase tudo que a gente vê de carnaval foram conceitos da Tia Ciata. A ala das baianas é uma homenagem à irmandade. As passistas também, e elas são referências a esta mulher, durante o período fértil. E é aí que ela é perigosa, o período fértil da mulher é próximo do sangue. Pensei no sacrifício da Tia Ciata, o sacrifício das mulheres negras negligenciadas”, ressalta. 

Carnaval, democracia destroçada, o corpo deposto da mulher negra, o sacrifício da existência de uma, acontecimentos que conduziram Ana a viver na pele a emblemática figura da passista, na Vai-Vai, em São Paulo. Literalmente na avenida, ela rasga mais uma camada de sua pesquisa, complexificando para sempre a objetificação da mulher negra.

“Somos sacrificadas em prol da construção no país. Principalmente a figura da passista e como este ícone da identidade nacional carrega uma consagração ao estupro deste próprio corpo. Ao mesmo tempo é um fundamento da Tia Ciata, que relaciona a mulher negra, nesta fase fértil e jovem. Como que ela pode negociar finalmente. Pois ela está longe da morte e perto da vida. Ela negocia o sexo, ela negocia a festa, a alegria, ela negocia com o corpo. O corpo vira a própria arma bélica dela com a sociedade. E a passista é rainha de qualquer forma. Aquela para onde todos os olhos estão olhando. Ela é um sujeito. É muito difícil matar uma passista no carnaval. Tem muita gente olhando para ela. E aí está a ferramenta usada pelas mulheres da periferia. De tentar ser passista para garantir que não vai morrer. Uma garantia que você não vai ser condenada ao trabalho doméstico. Fiz o processo seletivo de passista mesmo, e aí volta o lado do antropólogo, né? Tudo para entender o que é isto. Este corpo criado pela Tia Ciata, pela irmandade. Pensando nas yamis, que também é uma figura da cultura e iorubá e funciona na atualidade. Esta zona de negociação. Consegui virar passista, curto muito esta obra, que se chama o Sacrifício Ritual”, conta a artista, que já teve a obra exposta no Can Serrat, em Barcelona, e na Bienal de Glasgow, Escócia. 

O Sacrificio Ritual, obra de Ana Beatriz Almeida já foi exposta no Can Serrat em Barcelona e na Bienal de Glasgow, Escócia
Foto: Arquivo Pessoal

Deitando novamente sua obra aos ritos de morte no candomblé, Ana dá seguimento ao sacrifício e vai fundo numa outra fase do ritual-performance. “O corpo da passista entrou em vários lugares. Toda hora alguma instituição brasileira pede este trampo. Aí é isso, é o corpo estuprado que deu origem à nação. Ela tem este poder que a Tia Ciata falou, poder de negociar que tipo de vida se vai ter. Na sequência vêm os fundamentos do candomblé. Por exemplo, na prática, você mata o frango. O frango tem uma função, daí eu fiz o tchiodohun, que é o rito de divinização do ancestral, na cultura Ewe. Eu peguei o corpo da passista, que no caso era o meu corpo mesmo, e botei numa canoa de madeira maciça e enviei este corpo para a pedra que tem o assentamento mais antigo das divindades femininas primordiais, Nanã, Olokun, Oxum e Iemanjá, e eu mandei este corpo para este assentamento que fica em Cachoeira, é o assentamento mais antigo do Brasil dessas divindades”, explica Ana, que com a obra faz uma reencenação artística do rito de divinização dos reis de Uidá e Daomé. O thiodohun consiste em colocar o corpo do rei morto em uma canoa que atravessa o rio que une o país des vives e o país des mortes, afim de que ele adquira poderes sobrenaturais.

Ao finalizar a obra O Sacrifício Ritual, algo parece de fato mover o tabuleiro dos Orixás. As confluências que não passaram despercebidas pela jovem artista agora lhe darão uma espécie de licença para explorar geografias mais profundas de sua ancestralidade.

“Logo depois que terminei o ritual fui para uma viagem curatorial que passou por Gana, Togo, Benin e Nigéria, na qual eu encontrei artistas que eram Ewe e jogaram Fa para mim. No jogo eles me falaram que, se eu cheguei ali, é porque devia ter feito um sacrifício para voltar. Disseram que sou do grupo de pessoas que não poderiam voltar para o continente depois da escravidão. Mas, já que eu tinha conseguido voltar, me questionaram se eu tinha feito algum sacrifício antes de chegar lá. E na hora eu pensei, claro que sim, fiz O Sacrifício Ritual. Mas eu precisei fazer outro sacrifício lá, para poder voltar à África. Me deram algumas opções de locais, depois fui saber que era onde estavam espalhados os Almeidas. Acabei chegando ao Benin, e lá conheci-os, uma parte deles, são a cara da minha família paterna de São Gonçalo. Meus tios são um a cara do outro. Quando nos encontramos teve um jogo de Fa para confirmar se eu era mesmo da família. Meu Vodoun é o mesmo que de meu ancestral que retornou ao Benin [Joaquim de Almeida, Zoki Azata], significa que sou muito da família. E tem umas brisas, minha função é de Bokor Visionaire, que significa aquele que tem a missão de comunicar o material com o imaterial, e o visível com o invisível”, revela.

Ritual de iniciação do corpo novo de Helenira, que se chama Onira, na Ilha de Itaparica, lugar sagrado de Baba Egun, na Gameleira, Bahia
Foto: Arquivo Pessoal

Dentro de tão amplo aspecto, a trajetória artística que passeia pela geografia ancestral vai se fortalecendo e ganhando novos sentidos. “Depois de tudo que vivi, ficou bem mais nítido, meu foco era a Nalda, irmã da Helenira. É ela quem está viva para sentir saudade. Foi assim que eu fiz Onira. Se você ver a fotografia, tem uma árvore enorme, eu fiz esta roupa como quem faz roupa de Egun mesmo, embora eu não possa me iniciar no candomblé brasileiro, daí depois eu descobri que é por conta detsa história do Vodun. Pois a lógica do candomblé é esta, quando você é iniciado no candomblé você está se reconectando com seus ancestrais. Como o meu ancestral acabou conseguindo morrer onde os avós deles morreram, não faz sentido me reconectar com os meus ancestrais aqui, porque de alguma forma eu posso voltar, e os meus ancestrais estão lá. Estão aqui também, mas a conexão mágica deles é lá.  Então, não faz sentido eu me conectar com eles aqui. Eu nunca fui iniciada no Brasil, mas aqui eu seria de Oya Balé, que é divindade que separa a alma do corpo, e é a divindade que cuida da roupa do Egun. A roupa que o ancestral vai vestir para vir falar com os ancestrais. Para falar com quem ficou sentindo saudade. Então, eu fiz a roupa, depois a gente foi para esta árvore na Ilha de Itaparica, é um lugar sagrado de Baba Egun, na Gameleira.  Uma igreja que foi construída em 1530. Uma Gameleira que é conhecida como Baobá brasileiro na memória da África. Ela cresceu em torno da igreja que estava em ruínas, agora a igreja é sustentada pela árvore. Foi lá que eu fiz o ritual de iniciação do corpo novo de Helenira, que se chama Onira. Onira é uma qualidade de Iansã que está relacionada com a borboleta, também está relacionada com os heróis que morrem no campo de batalha. Na verdade, é como se a borboleta fosse a alma de um herói que morreu num campo de batalha. O que as galerias querem comprar é isto, o registro de imagem destes rituais, entende? A luta tem um valor ético e estético inegociável. Porque ela, em si, já é o último recurso de negociação entre as pessoas e os sistemas”, termina Ana Bee.

Vídeo de Lane Bum em ode a Ana Beatriz Almeida

Por @ericamagni

Imagem e vídeo @lane_bum

Revisão: zé carol