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Neste segundo episódio Joice Marino assina uma belíssima ambientação sonora, que ela chama de experimento artesanal, baseado no texto que publicamos sobre a pesquisa da artista Cecilia Cavalieri, era setembro de 2020. Foi o segundo post da Coluna Translação, e bravamente sobrevivemos até aqui. Não sei como foi possível, mas três meses depois, (a ideia é que seja trimestral mesmo), estamos no Spotify com nosso segundo capítulo. Uhul!

É com essa energia de fim do mundo que viemos apresentar um novo olhar sobre a obra, só que agora através do áudio, este outro meio de comunicação a ser desvendado em cada episódio trimestral que publicaremos neste espaço que nos abriga, o site Revistas de Cultura. Por dentro da narrativa de Joice, há um trabalho minucioso de escuta que dá lugar a uma espécie de acalanto sonoro que ressoa de um lugar gutural, onde esparramamos nossos sentidos com deleite.

Unir essas duas artistas está sendo um grande momento para a Coluna Translação. A obra de Cecília, traz para nós um aconchego de alguém que se transladou por díspares coagulações até chegar no título de quase formada, ou quase doutora em leite. O jorro de suas tetas foi tão grande, assim como o voo de suas ideias, que inevitavelmente chegaram à França, onde publicou, em língua francesa, o LA FEMME – o que ela não chama de livro e sim de dispositivo contracolonial de discurso filosófico. Audaciosamente, num belo dia de setembro, o livro foi publicado em Floriparis, pela editora Psémata [um selo artimanhoso da Cultura & Barbárie], em 2019. Agora a obra ganha nova roupa através do trabalho de Joice, que nos faz viajar para uma constelação chamada Via Láctea.

Releia a entrevista com Cecilia Cavalieri

Ouça o Podcast Translação

O Podcast Translação é uma criação de Joice Marino com texto de Érica Magni

O segundo episódio é sobre a obra de Cecilia Cavalieri

Por Érica Magni

Outono 2021


Retrato de Bianca Kalutor feito com fogo e escarificação no metal por Lane Bum
Retrato de Bianca Kalutor feito por lane_bum

Não há o que Bianca Kalutor já não tenha testemunhado nesta vida. Conversar com ela é como ir rasgando, uma a uma, as mentiras que nos contaram. É insano tentar acomodá-la em um espaço convencional, assim como tornar o discurso desta artista algo simples, embora esteja o tempo todo dizendo claramente o que tem que dizer. É preciso ter coragem para compreender todo universo que pulsa de sua existência. É extrema, sim, muito mais do que todes nós juntes poderíamos imaginar. E para entender Bianca é preciso ir muito além da palavra, códigos, totalidades. É preciso andar com ela pelas mesmas vielas, nas mesmas calçadas que ela andou.

No entanto, é mesmo com a palavra que vislumbramos contar essa história, através de um documento minucioso, que contém todas as informações necessárias para chegarmos a um lugar comum com Bia. Um manifesto inédito, que publicamos hoje, num dia tão despretensiosamente calculado. E lançamos também uma chamada pública que batizamos de UM CHÃO PARA BIA, que traz um tema urgente para esta artista: moradia. Assim, com bastante pressa, chegamos à 4ª edição da Coluna Translação, com a sorte de poder ainda entrevistar uma artista tão importante na cena Queer contemporânea.

Clique na imagem para ser direcionado ao link da chamada pública Um Chão Para Bia

Quem ainda não conhece Bia, provavelmente irá conhecer em algum momento, e talvez não tenha sido ou será uma experiência tão agradável, mas com certeza transformadora. Bia não vai morrer mais, ela está em todo lugar. Bia é um artefato de fogo, uma flecha em chamas, uma navalha certeira, pronta para desarmar os discursos mais contundentes sobre o que é existir.

Atualmente com 34 anos, ela contraria as estatísticas: quantas travestis você conhece? Bia, por estratégia, ainda está viva, e as pessoas chegam a se espantar, se perguntam como ainda seja possível.  Uma artista negra, travesti, abandonada à própria sorte na infância, que passou por abrigos públicos, unidades de ressocialização, prisões, habitou na solidão mais profunda, respirou nos lugares mais bizarros, negociou com seu corpo, morou nos mais pútridos becos corrompidos pelo preconceito. Teve sua vida nas mãos de muitos psicopatas do Estado, os que são pagos para torturar corpos negros, corpos trans. Negociou, trapaceou, sobreviveu.

Aqui, em uma metáfora literária canônica, Bia poderia ser a poeta Vírgilia, que acompanha Dante até o inferno e faz um tour pela memória deste país racista que aniquila suas próprias filhas pretas. Um inferno bastante real, um caldeirão que não parece ter fim para Bia e para muitos – a maioria de nós. Bia está viva, mas muito vulnerável, já que ainda luta por um chão, por acolhimento, afetividade, concretude, longevidade.

Quer poder ter um cachorro alto correndo no quintal, ter filhos, ter plantas, desejos básicos. Através da luta de Bia vamos poder contribuir para mudar uma história que se repete, mas que também irá ecoar aos quatro cantos do mundo. Até quem sabe chegar na lua.


Eu passei por muitas situações, muitas questões na minha vida, que eu acho que não tenham sido o suficiente para eu entender como é que é o mundo. Acho que a gente não tem que entender como é o mundo. Porque a gente é só viver. E aí isso pra mim se torna bizarro, torna-se bizarro porque eu não vivo, eu interpreto. Você entendeu? Eu não vivo. Quando eu vivo a minha espontaneidade… Eu procuro me preservar, porque minha espontaneidade não é ainda vista, não é ainda comentada. Agora, neste momento, que as pessoas estão notando, estão falando, estão procurando saber sobre pessoas trans, estão querendo na verdade encontrar talentos para explorar. Só que na verdade a gente não vem desse lugar. A gente não vem desse lugar que vai ser um talento. Hoje eu me descobri artista. Minha consciência como ser artista vem já de anos, só que não necessariamente eu sou “reconhecida”. Eu me reconhecer como artista pedia requisitos, porque a palavra artista é para quem já havia preenchido os requisitos. Hoje não, hoje eu sei que meu corpo é arte. Eu ser viva é arte. Eu me vejo sendo interpretada na televisão, eu me vejo sendo interpretada na rua. Eu me vejo sendo interpretada. Ou, se não é isso, é o contrário: eu estou interpretando todas essas coisas. Você entende o que eu estou querendo te dizer? Quando eu acordo, que eu me maquio, quando eu “transpasso uma heterossexualidade” por conta da passabilidade social feminina. Hoje eu entendo o que é ser a mulher, aí eu fico num lugar muito venenoso da coisa. Porque eu saber como é ser a mulher é triste. Que hoje me faz querer dizer que não, eu sou a travesti, e a travesti é diferente da mulher [cis] heterossexual. Eu afirmo isso por conta da política, porque há uma política que enquadra todos nós. Eu sou artista e sou também uma ativista. Eu não posso lutar sua luta no sentido de vida, porque não é minha história de vida. Eu posso falar, posso divulgar sobre a sua luta, mas eu não vou poder lutar sua luta. A minha luta é de um lugar de empregabilidade. De empregabilidade que nos falta. De possibilidades sociais. De proteção. Lei. Lei de proteção.

(Trecho da entrevista de Bianca Kalutor concedida a Érica Magni para a Coluna Translação)

Por @ericamagni
Arte @lane_bum

Assinam o manifesto:
Texto de Bianca Kalutor
Edição do texto: zé carol
Arte: @lane_bum

Assinam as peças da chamada pública:
Vídeo: @caio_d_arte
Design e Direção de Arte: Wolmin Dahgrota / DgHorizon.cc

“Mas o tempo não para, meu curso segue inalterado…”

Em estado de transição, Zé Carol nos presenteia com um texto inédito de Kharms, poeta russo, e nos convida a pensar sobre a busca pela intimidade com a linguagem que habita o corpo, e somente a partir daí, iniciar o que poderíamos chamar de a grande jornada de uma literatura da alma. Mas, até chegar a este formato claro de pensamento sobre a importância da própria linguagem, há uma trajetória feita por ele que é inspiradora e nos leva a pensar na busca da linguagem como a grande mola propulsora de uma existência. Esta história em translação começa em Uberaba, Minas Gerais, no ano de 1989. De uma família simples que já tinha dois filhinhos, nasceu mais um, que naquela ocasião foi batizado de Carolina. Sendo assim, Zé passou a vida performando uma identidade feminina, aparentemente meiga e tímida. “Foram quase 30 anos sendo mulher compulsoriamente, tendo que executar a performance como mulher. Agora, com outra performance, vou de encontro a uma palavra: fragilidade. No entanto, minha relação com a minha intimidade ganha mais força, partindo do princípio que a força é simplesmente fluir e se moldar através do tempo, não mais tensionar para caber”, explica Zé Carol, que em 2017 decidiu abandonar o nome social Carolina e finalmente assumir-se José. A coragem veio depois de tanto ler e imergir nos textos do poeta russo Danill Kharms, ao mesmo tempo em que começou a conhecer pessoas trans, recebendo forças para embarcar no processo intenso de transição de gênero.

Durante o tempo que cursou Letras – Português-Russo na UFRJ, de 2011 a 2016, Zé se apaixonou pelo poeta russo e passou a decifrar os códigos de sua linguagem intimamente. O encontro foi repentino, pois antes de entrar para a faculdade Zé não tinha ideia de que tudo precisaria ruir para transformar-se no agora em movimento. “Tinha este professor que selecionou prosas curtas do Kharms e levou para a gente traduzir e pensar a parte linguística. Mesmo sem compreender muito, bem no início, eu percebi que tinha um ritmo estranho ali, e que isso era algo maior que a palavra em si. Quando a gente traduziu eu gostei muito e comecei a procurar coisas dele. A literatura russa pra mim virou só Kharms…”

Пять неоконченных повествований





Дорогой Яков Семенович,

1. Один человек, разбежавшись, ударился головой об кузницу стакой силой, что кузнец отложил в сторону кувалду, которую он держал в руках, снял кожаный передник и, пригладив ладонью волосы, вышел на улицу посмотреть, что случилось. 2. Тут кузнец увидел человека, сидящего на земле. Человек сидел на земле и держался за голову. 3.Что случилось? — спросил кузнец. Ой! — сказал человек. 4. Кузнец подошел к человеку поближе. 5. Мы прекращаем повествование о кузнеце и неизвестном человеке и начинаем новое повествование о четырех друзьях гарема. 6. Жили-были четыре любителя гарема. Они считали, что приятно иметь зараз по восьми женщин. Они собирались по вечерам и рассуждали о гаремной жизни. Они пили вино; они напивались пьяными; они валились под стол; они блевали. Было противно смотреть на них. Они кусали друг друга за ноги. Они называли друг друга нехорошими словами. Они ползали на животах своих. 7. Мы прекращаем о них рассказ и приступаем к новому рассказу о пиве. 8. Стояла бочка с пивом, а рядом сидел философ и рассуждал: Эта бочка наполнена пивом. Пиво бродит и крепнет. И я своим разумом брожу по надзвездным вершинам и крепну духом. Пиво есть напиток, текущий в пространстве, я же есть напиток, текущий во времени. 9. Когда пиво заключено в бочке, ему некуда течь. Остановится время, и я встану. 10. Но не остановится время, и мое течение непреложно. 11. Нет, уж пусть лучше и пиво течет свободно, ибо противно законам природы стоять ему на месте. И с этими словами философ открыл кран в бочке, и пиво вылилось на пол. 12. Мы довольно рассказали о пиве;теперь мы расскажем о барабане. 13. Философ бил в барабан и кричал: Я произвожу философский шум! Этот шум не нужен никому, он даже мешает всем. Но если он мешает всем, то значит он не от мира сего. А если он не от мира сего, то он от мира того. А если он от мира того, то я буду производить его. 14. Долго шумел философ. Но мы оставим эту шумную повесть и перейдем к следующей тихой повести о деревьях. 15. Философ гулял под деревьями и молчал, потому что вдохновение покинуло его.

27 марта 1937

A relação de Zé com o poeta da vanguarda russa, que morreu considerado louco numa cela psiquiátrica, começa na universidade. Este encontro foi decisivo para a reativação de códigos adormecidos, que para ele só poderiam mesmo ser acordados via poesia. “As performances compulsórias geram na gente um estado de distração, coisas das quais muitas vezes convenientemente nos distraímos, e esta distração faz com que no momento a gente não conduza a energia, e morre a inquietação de buscar um vocabulário que contemple tais palavras, para tais sensações e sentimentos. Kharms me proporciona uma intimidade com o russo que eu não tenho com outros autores. Lembro de ficar numa imersão muito grande daquelas condições que ele propunha. Eu não lia muito, mas eu carregava aquele estado de leitura, concentração absoluta durante as atividades, a poética dele penetrava nessas atividades que eu executava. Ele se infiltrava no meu dia a dia. O que me interessava era isto, o estado de concentração que eu estava quando lidava com o texto dele, traduzindo, lendo, etc. E pouco a pouco ele foi fazendo ruir minha relação com a academia. As construções que eu dava continuidade… este encontro com Kharms foi descontinuando meus caminhos na busca desta “correção” performática, pô, e ele era um cara cis… Um homem cis branco, que não é uma referência europeia propriamente, até hoje, não é reconhecido”.

Zé traduz um texto inédito do poeta para o Revistas de Cultura, onde é possível observar que a partir da dialética do poeta vanguardista, tudo pode acontecer, as coisas vão se desintegrando ao longo do texto, as mutações acontecem naturalmente, e outras possibilidades de narrativa vão surgindo de um nada que parece não ter mais fim. “O Kharms foi uma ferramenta para que eu pudesse cavar um túnel de fuga do universo ilusório que eu tinha criado para mim. Esta figura de um suposto louco, que morreu numa cela psiquiátrica (provavelmente de fome, durante o cerco de Leningrado), ele era alguém que estava ali escrevendo, se colocando, mergulhado num risco completo no regime soviético, ele sabia que ele não poderia ser lido naquele momento, esta urgência de concentração que ele passa através da palavra me alimentou muito. Ele não era publicado na época, exceto por algumas publicações infantis, que não considero tão infantis assim, pois tinha um jogo tão profundo de palavras, com a linguagem e com a sonoridade delas – efeitos simbólicos que não eram comuns nos poemas infantis – e aí ele já começa a ser perseguido politicamente, incomodava a proposta dele de fazer as crianças pensarem para além da normalização da vida e do regime político que já se expandia na época”.

Cinco narrativas inacabadas

Caro Iakov Semenovitch,

1. Um sujeito, ao pegar um embalo, bateu com a cabeça tão forte na ferraria, que o ferreiro pôs de lado o malho que estava segurando, tirou o avental de couro e, alisando os cabelos com a palma da mão, foi para a rua ver o que tinha acontecido. 2. Lá o ferreiro viu o sujeito sentado no chão. O sujeito estava sentado no chão, segurando a cabeça entre as mãos. 3. “O que aconteceu?” – perguntou o ferreiro. “Ai!” – disse o sujeito. 4. O ferreiro chegou mais perto do sujeito. 5. Nós vamos interromper a narrativa sobre o ferreiro e o sujeito desconhecido para iniciar uma nova narrativa sobre quatro amigos de harém. 6. Era uma vez quatro adoradores de harém. Eles acreditavam ser agradável ter umas oito mulheres ao mesmo tempo. Eles se reuniam de noite e ponderavam sobre a vida num harém. Eles bebiam vinho; bebiam até ficarem bêbados; estatelavam-se embaixo da mesa; eles vomitavam. Era repugnante olhar para eles. Eles mordiam os pés uns dos outros. Eles chamavam uns aos outros com palavras de mau gosto. Ficavam se arrastando com a barriga. 7. Nós vamos interromper este conto sobre eles e dar início a um novo conto sobre cerveja. 8. Ao lado do barril de cerveja um filósofo estava sentado e raciocinava: “Este barril está cheio de cerveja. A cerveja está fermentando e ficando mais forte. Eu estou fermentando a píncaros altíssimos em minha razão e ficando mais forte em meu espírito. A cerveja é uma bebida corrente no espaço, já eu sou uma bebida corrente no tempo. 9. Quando a cerveja está presa no barril, ela não pode fluir a lugar nenhum. Para-se o tempo, e eu fico parado. 10. Mas o tempo não para, meu curso segue inalterado. 11. Não, é melhor que a cerveja siga seu curso livremente, pois vai contra as leis da natureza mantê-la num mesmo lugar”. E com essas palavras o filósofo abriu a torneira do barril e a cerveja escorreu pelo chão. 12. Nós já contamos o bastante sobre a cerveja; agora vamos contar algo sobre o tambor. 13. O filósofo bateu no tambor e gritou: “Eu produzi um ruído filosófico! Ninguém precisa deste ruído, ele é até incômodo a todos. Mas se ele incomoda a todos, quer dizer que ele não é deste mundo. E se ele não é deste mundo, então ele é do outro mundo. E se ele é do outro mundo, então eu o produzirei”. 14. O filósofo ficou fazendo ruído por muito tempo. Mas nós vamos parar esta narrativa ruidosa e passaremos à próxima narrativa, silenciosa, sobre as árvores. 15. O filósofo caminhava sob as árvores e estava em silêncio, pois a inspiração o abandonara.

27 de março de 1937


Alguns pontos sobre Kharms, na visão de Zé:

“Na vida movimentada de Dandan, faltava, contudo, um ganha-pão” (MOUNTIAN, Daniela)

  • Daniil, ou Dandan, teve apenas dois poemas publicados além dos poemas para crianças, que eram sua fonte de renda. Na medida que o regime foi ficando mais rigoroso, ele foi publicando menos e menos os textos infantis. Seus textos, como os de outros vanguardistas, eram considerados antissoviéticos.
  • Tinha muitas vivências poéticas no cotidiano com outros artistas que acreditavam que a poesia deveria ser uma força fundamental na vida de qualquer pessoa comum. Eram muito conhecidos na cidade (Kharms nasceu e viveu em São Petersburgo) por irromperem nas cenas diárias causando alguma agitação, com a poesia, o manifesto, a performance.
  • Frequentava muitos grupos que eram chamados de futuristas, mas que se diferenciavam muito e até se opunham ao futurismo italiano (que deu origem ao termo). Viveu transitando entre diferentes grupos durante o pulsante período da vanguarda russa.
  • Ele estava refutando os modos de se conceber poesia, linguagem e relações.
  • Contestava o tempo, o espaço, o recorte do corpo humano. A contestação era muito profunda. Ele não se encaixava na academia nem na proposta de realismo socialista, não era acolhido por nenhum lado, e assim era muito fácil ser condenado à prisão e a trabalhos forçados, quando não à morte.
  • Ele foi preso duas vezes. A segunda vez foi em 1941 e, no ano seguinte, ainda preso, ele morre.
  • Escrevia sem estar sendo publicado. Após sua morte, a veiculação e a publicação de seus textos continuaram sendo proibidas, mas ele era lido clandestinamente.
  • Estava escrevendo aquilo que o levaria à morte.
  • Esta relação dele com a palavra é o que chamo de urgência pela intimidade com a vida. Mas isto não se dá de uma forma romantizada ou puramente emocional… Seus textos são estranhos, às vezes truncados, absurdos.
  • Como artista, reivindicava a busca pela intimidade com a realidade como a base de todas as relações, todas as formas de materializar a vida, seja trabalhando, conhecendo, se movendo, reivindicava a natureza de todos os movimentos que se transformam em normas e conjuntos de papéis impostos sobre a sociedade.
  •  Propõe uma experiência literária que tem relação imediata com o processo da vida, gerando estados transitórios a partir de personagens que podem desaparecer do nada, ou carregam memórias falhas, onde as partes do corpo se espalham, enfim, dispersam-se as construções todas.





Em nossa longa conversa por Skype, durante a pandemia, Zé Carol contou que voltou para Minas, está inventando uma nova forma de existir em si mesmo, fazendo seus próprios móveis, criando bichos e plantas, se voltando mais para a terra, ao lado de Lane Bum, que assina a bela arte da entrevista e responde no Instagram como @lane_bum.

Além da tradução do russo, Zé nos deixa também dois poemas escritos antes do início de sua transição. E ressalta que está aberto para receber pedidos de revisão, criação e tradução.

nem era alguém apagar-se soba palavra
nem era não apagar-se soba palavra
média a voz que atravessa não ao meio de todas as coisas

zé carol, 2016

a lua queimou meus olhos
é tudo claro sim é bonito
tudo cheio de dores

zé carol, 2015 ou 16

“Eu ainda gosto destes dois poemas de antes da transição, porque neles dois tem um desejo muito forte de experimentar o silêncio pela poesia ou a poesia pelo silêncio. Na época, eu sentia isto porque conheci uns poemas da Alejandra Pizarnik e também estava lendo a Nina Rizzi. Eram poemas que alimentavam muito este desejo em mim. Este desejo que ainda sinto hoje, mesmo a partir de outras referências, que não vêm só de leituras.”

“Eu ia fazer uma lista de artistas trans, mas eu quero apenas enfatizar a existência da Bianca Kalutor. Uma artista absoluta que é empurrada pros lugares de mais vulnerabilidade nesta sociedade. Tem que ter muito fomento e visibilidade, ela movimenta muito a vida de pessoas trans, agiliza muito rolê, a presença dela devolve tudo ao movimento. @bibikalutor83 @kalutor50”

Por @ericamagni

Arte @lane_bum

Revisão: zé carol