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Primeiro episódio foi gravado e construído a partir de texto e imagem publicados em nossa primeira edição, em agosto de 2020. O episódio traz a entrevista com o poeta Zé Carol, contando sua relação com Danill Kharms, além de uma tradução inédita do escritor russo que morreu em uma cela psiquiátrica. Joice Marino faz um experimento com o texto jornalístico, transformando o som em objeto poético para além da palavra.

Estamos felizes em anunciar, nesta primeira edição do ano, que a coluna Translação também será um podcast. Este primeiro episódio, que timidamente chamamos de “um objeto experimental”, é composto pelo texto da entrevista que realizei com o poeta Zé Carol e que traz a ilustração de Lane Bum, material publicado em agosto de 2020, aqui no site Revistas de Cultura.

Era o início de tudo, estávamos tateando linguagens e tentando saltar um pouco do que tradicionalmente se poderia fazer com a história de um poeta em transição que nos presenteou com uma tradução inédita de um texto russo. Fato é que para todes nós da equipe translação, Danill Kharms foi uma excelente porta de entrada, ou um alçapão de amplitude infinita, que nos deu abertura para outras alucinações, outros delírios mais graves ao longo do ano, inclusive este documento sonoro que subimos com muito orgulho e despretensão para a nossa plataforma no Spotify (siga-nos).

E foi com esta base de texto e imagem que a atriz Joice Marino, criadora do podcast, costurou uma narrativa sonora, nos convidando a mergulhar profundamente nas tramas de sua pesquisa sobre o som e o fluxo criativo, e desdobrando sentidos para além das palavras. Joice tenta e consegue subverter a sua própria mente (e a nossa também) nos caminhos de um teatro que se liberte dos adestramentos intelectuais.

Um rastro ruidoso pelo qual podemos nos aproximar da sua experiência íntima de criação, onde carne, vozes, números, ruídos e cores não parecem estar preocupados em cravar diferenças entre si. Partindo da imagem e do texto como estados de concentração, a atriz nos cria um estado de coisas em que nossas definições se confundem e avançam para além dos limites que traçamos. Neste estado então criamos, não delimitamos.

A atriz Joice Marino, que assina o Podcast Translação

Para finalizar com um tom mais pessoal, ressalto que conheço Joice há mais de uma década, e que esta artista em minha vida está como um místico totem de conhecimento experimental, a quem recorro sempre a fim de desviar-me das burocracias criativas, que poderiam me acometer com o que chamo de “doença de ataraxia poética”. Contra este mal que me assola, e creio que a todes poetas, recorro a ela. Está ali um antídoto poderoso, talvez minha única guru possível (risos). E é certo encontrar nela algum tipo de acolhimento eficaz, que flui naturalmente de sua experiência como corpo vagante no mundo. Não é à toa que seu animal interior é um javali. A maneira como ela faz seu câmbio intelectual prevalecer no caos é um frescor lenitivo na moleira de um recém-nascido, que dentro da bolsa sufocante de alguém, está cruzando um deserto árido, sem dar-se conta da travessia, e o deserto é o cotidiano.

(Eu, Lane e Zé) Damos boas vindas a Joice, que vem fazer parte oficialmente da equipe Translação, onde por aqui costumamos “brincar” de dizer que ACABAMOS: este é o nome de batismo deste movimento criativo que nasce entre nós, com nome trágico e engraçado.

E de fato, tivemos que desabar e acabar muitas vezes este ano durante a produção da coluna translação, desconstruir para recomeçar, a fim de alcançar uma viagem potente de sentidos, de novo, de novo e de novo, até quando necessário for preciso ocupar este espaço no site Revistas de Cultura, que amigavelmente hackeamos, trazendo conteúdo que deseja ser útil no sentido de aguçar o “se perder” a cada nova edição, inspirades por tantes artistes geniais que passaram e passarão por aqui em 2021.

Clique para ouvir o podcast

Desejamos um feliz ano novo para todes. Ouçam e viagem com o Podcast Translação, feito por Joice Marino especialmente para nós.

Por @ericamagni

Arte @lane_bum

Revisão: zé carol

Verão 2021


Retrato de Bianca Kalutor feito com fogo e escarificação no metal por Lane Bum
Retrato de Bianca Kalutor feito por lane_bum

Não há o que Bianca Kalutor já não tenha testemunhado nesta vida. Conversar com ela é como ir rasgando, uma a uma, as mentiras que nos contaram. É insano tentar acomodá-la em um espaço convencional, assim como tornar o discurso desta artista algo simples, embora esteja o tempo todo dizendo claramente o que tem que dizer. É preciso ter coragem para compreender todo universo que pulsa de sua existência. É extrema, sim, muito mais do que todes nós juntes poderíamos imaginar. E para entender Bianca é preciso ir muito além da palavra, códigos, totalidades. É preciso andar com ela pelas mesmas vielas, nas mesmas calçadas que ela andou.

No entanto, é mesmo com a palavra que vislumbramos contar essa história, através de um documento minucioso, que contém todas as informações necessárias para chegarmos a um lugar comum com Bia. Um manifesto inédito, que publicamos hoje, num dia tão despretensiosamente calculado. E lançamos também uma chamada pública que batizamos de UM CHÃO PARA BIA, que traz um tema urgente para esta artista: moradia. Assim, com bastante pressa, chegamos à 4ª edição da Coluna Translação, com a sorte de poder ainda entrevistar uma artista tão importante na cena Queer contemporânea.

Clique na imagem para ser direcionado ao link da chamada pública Um Chão Para Bia

Quem ainda não conhece Bia, provavelmente irá conhecer em algum momento, e talvez não tenha sido ou será uma experiência tão agradável, mas com certeza transformadora. Bia não vai morrer mais, ela está em todo lugar. Bia é um artefato de fogo, uma flecha em chamas, uma navalha certeira, pronta para desarmar os discursos mais contundentes sobre o que é existir.

Atualmente com 34 anos, ela contraria as estatísticas: quantas travestis você conhece? Bia, por estratégia, ainda está viva, e as pessoas chegam a se espantar, se perguntam como ainda seja possível.  Uma artista negra, travesti, abandonada à própria sorte na infância, que passou por abrigos públicos, unidades de ressocialização, prisões, habitou na solidão mais profunda, respirou nos lugares mais bizarros, negociou com seu corpo, morou nos mais pútridos becos corrompidos pelo preconceito. Teve sua vida nas mãos de muitos psicopatas do Estado, os que são pagos para torturar corpos negros, corpos trans. Negociou, trapaceou, sobreviveu.

Aqui, em uma metáfora literária canônica, Bia poderia ser a poeta Vírgilia, que acompanha Dante até o inferno e faz um tour pela memória deste país racista que aniquila suas próprias filhas pretas. Um inferno bastante real, um caldeirão que não parece ter fim para Bia e para muitos – a maioria de nós. Bia está viva, mas muito vulnerável, já que ainda luta por um chão, por acolhimento, afetividade, concretude, longevidade.

Quer poder ter um cachorro alto correndo no quintal, ter filhos, ter plantas, desejos básicos. Através da luta de Bia vamos poder contribuir para mudar uma história que se repete, mas que também irá ecoar aos quatro cantos do mundo. Até quem sabe chegar na lua.


Eu passei por muitas situações, muitas questões na minha vida, que eu acho que não tenham sido o suficiente para eu entender como é que é o mundo. Acho que a gente não tem que entender como é o mundo. Porque a gente é só viver. E aí isso pra mim se torna bizarro, torna-se bizarro porque eu não vivo, eu interpreto. Você entendeu? Eu não vivo. Quando eu vivo a minha espontaneidade… Eu procuro me preservar, porque minha espontaneidade não é ainda vista, não é ainda comentada. Agora, neste momento, que as pessoas estão notando, estão falando, estão procurando saber sobre pessoas trans, estão querendo na verdade encontrar talentos para explorar. Só que na verdade a gente não vem desse lugar. A gente não vem desse lugar que vai ser um talento. Hoje eu me descobri artista. Minha consciência como ser artista vem já de anos, só que não necessariamente eu sou “reconhecida”. Eu me reconhecer como artista pedia requisitos, porque a palavra artista é para quem já havia preenchido os requisitos. Hoje não, hoje eu sei que meu corpo é arte. Eu ser viva é arte. Eu me vejo sendo interpretada na televisão, eu me vejo sendo interpretada na rua. Eu me vejo sendo interpretada. Ou, se não é isso, é o contrário: eu estou interpretando todas essas coisas. Você entende o que eu estou querendo te dizer? Quando eu acordo, que eu me maquio, quando eu “transpasso uma heterossexualidade” por conta da passabilidade social feminina. Hoje eu entendo o que é ser a mulher, aí eu fico num lugar muito venenoso da coisa. Porque eu saber como é ser a mulher é triste. Que hoje me faz querer dizer que não, eu sou a travesti, e a travesti é diferente da mulher [cis] heterossexual. Eu afirmo isso por conta da política, porque há uma política que enquadra todos nós. Eu sou artista e sou também uma ativista. Eu não posso lutar sua luta no sentido de vida, porque não é minha história de vida. Eu posso falar, posso divulgar sobre a sua luta, mas eu não vou poder lutar sua luta. A minha luta é de um lugar de empregabilidade. De empregabilidade que nos falta. De possibilidades sociais. De proteção. Lei. Lei de proteção.

(Trecho da entrevista de Bianca Kalutor concedida a Érica Magni para a Coluna Translação)

Por @ericamagni
Arte @lane_bum

Assinam o manifesto:
Texto de Bianca Kalutor
Edição do texto: zé carol
Arte: @lane_bum

Assinam as peças da chamada pública:
Vídeo: @caio_d_arte
Design e Direção de Arte: Wolmin Dahgrota / DgHorizon.cc

“Mas o tempo não para, meu curso segue inalterado…”

Em estado de transição, Zé Carol nos presenteia com um texto inédito de Kharms, poeta russo, e nos convida a pensar sobre a busca pela intimidade com a linguagem que habita o corpo, e somente a partir daí, iniciar o que poderíamos chamar de a grande jornada de uma literatura da alma. Mas, até chegar a este formato claro de pensamento sobre a importância da própria linguagem, há uma trajetória feita por ele que é inspiradora e nos leva a pensar na busca da linguagem como a grande mola propulsora de uma existência. Esta história em translação começa em Uberaba, Minas Gerais, no ano de 1989. De uma família simples que já tinha dois filhinhos, nasceu mais um, que naquela ocasião foi batizado de Carolina. Sendo assim, Zé passou a vida performando uma identidade feminina, aparentemente meiga e tímida. “Foram quase 30 anos sendo mulher compulsoriamente, tendo que executar a performance como mulher. Agora, com outra performance, vou de encontro a uma palavra: fragilidade. No entanto, minha relação com a minha intimidade ganha mais força, partindo do princípio que a força é simplesmente fluir e se moldar através do tempo, não mais tensionar para caber”, explica Zé Carol, que em 2017 decidiu abandonar o nome social Carolina e finalmente assumir-se José. A coragem veio depois de tanto ler e imergir nos textos do poeta russo Danill Kharms, ao mesmo tempo em que começou a conhecer pessoas trans, recebendo forças para embarcar no processo intenso de transição de gênero.

Durante o tempo que cursou Letras – Português-Russo na UFRJ, de 2011 a 2016, Zé se apaixonou pelo poeta russo e passou a decifrar os códigos de sua linguagem intimamente. O encontro foi repentino, pois antes de entrar para a faculdade Zé não tinha ideia de que tudo precisaria ruir para transformar-se no agora em movimento. “Tinha este professor que selecionou prosas curtas do Kharms e levou para a gente traduzir e pensar a parte linguística. Mesmo sem compreender muito, bem no início, eu percebi que tinha um ritmo estranho ali, e que isso era algo maior que a palavra em si. Quando a gente traduziu eu gostei muito e comecei a procurar coisas dele. A literatura russa pra mim virou só Kharms…”

Пять неоконченных повествований





Дорогой Яков Семенович,

1. Один человек, разбежавшись, ударился головой об кузницу стакой силой, что кузнец отложил в сторону кувалду, которую он держал в руках, снял кожаный передник и, пригладив ладонью волосы, вышел на улицу посмотреть, что случилось. 2. Тут кузнец увидел человека, сидящего на земле. Человек сидел на земле и держался за голову. 3.Что случилось? — спросил кузнец. Ой! — сказал человек. 4. Кузнец подошел к человеку поближе. 5. Мы прекращаем повествование о кузнеце и неизвестном человеке и начинаем новое повествование о четырех друзьях гарема. 6. Жили-были четыре любителя гарема. Они считали, что приятно иметь зараз по восьми женщин. Они собирались по вечерам и рассуждали о гаремной жизни. Они пили вино; они напивались пьяными; они валились под стол; они блевали. Было противно смотреть на них. Они кусали друг друга за ноги. Они называли друг друга нехорошими словами. Они ползали на животах своих. 7. Мы прекращаем о них рассказ и приступаем к новому рассказу о пиве. 8. Стояла бочка с пивом, а рядом сидел философ и рассуждал: Эта бочка наполнена пивом. Пиво бродит и крепнет. И я своим разумом брожу по надзвездным вершинам и крепну духом. Пиво есть напиток, текущий в пространстве, я же есть напиток, текущий во времени. 9. Когда пиво заключено в бочке, ему некуда течь. Остановится время, и я встану. 10. Но не остановится время, и мое течение непреложно. 11. Нет, уж пусть лучше и пиво течет свободно, ибо противно законам природы стоять ему на месте. И с этими словами философ открыл кран в бочке, и пиво вылилось на пол. 12. Мы довольно рассказали о пиве;теперь мы расскажем о барабане. 13. Философ бил в барабан и кричал: Я произвожу философский шум! Этот шум не нужен никому, он даже мешает всем. Но если он мешает всем, то значит он не от мира сего. А если он не от мира сего, то он от мира того. А если он от мира того, то я буду производить его. 14. Долго шумел философ. Но мы оставим эту шумную повесть и перейдем к следующей тихой повести о деревьях. 15. Философ гулял под деревьями и молчал, потому что вдохновение покинуло его.

27 марта 1937

A relação de Zé com o poeta da vanguarda russa, que morreu considerado louco numa cela psiquiátrica, começa na universidade. Este encontro foi decisivo para a reativação de códigos adormecidos, que para ele só poderiam mesmo ser acordados via poesia. “As performances compulsórias geram na gente um estado de distração, coisas das quais muitas vezes convenientemente nos distraímos, e esta distração faz com que no momento a gente não conduza a energia, e morre a inquietação de buscar um vocabulário que contemple tais palavras, para tais sensações e sentimentos. Kharms me proporciona uma intimidade com o russo que eu não tenho com outros autores. Lembro de ficar numa imersão muito grande daquelas condições que ele propunha. Eu não lia muito, mas eu carregava aquele estado de leitura, concentração absoluta durante as atividades, a poética dele penetrava nessas atividades que eu executava. Ele se infiltrava no meu dia a dia. O que me interessava era isto, o estado de concentração que eu estava quando lidava com o texto dele, traduzindo, lendo, etc. E pouco a pouco ele foi fazendo ruir minha relação com a academia. As construções que eu dava continuidade… este encontro com Kharms foi descontinuando meus caminhos na busca desta “correção” performática, pô, e ele era um cara cis… Um homem cis branco, que não é uma referência europeia propriamente, até hoje, não é reconhecido”.

Zé traduz um texto inédito do poeta para o Revistas de Cultura, onde é possível observar que a partir da dialética do poeta vanguardista, tudo pode acontecer, as coisas vão se desintegrando ao longo do texto, as mutações acontecem naturalmente, e outras possibilidades de narrativa vão surgindo de um nada que parece não ter mais fim. “O Kharms foi uma ferramenta para que eu pudesse cavar um túnel de fuga do universo ilusório que eu tinha criado para mim. Esta figura de um suposto louco, que morreu numa cela psiquiátrica (provavelmente de fome, durante o cerco de Leningrado), ele era alguém que estava ali escrevendo, se colocando, mergulhado num risco completo no regime soviético, ele sabia que ele não poderia ser lido naquele momento, esta urgência de concentração que ele passa através da palavra me alimentou muito. Ele não era publicado na época, exceto por algumas publicações infantis, que não considero tão infantis assim, pois tinha um jogo tão profundo de palavras, com a linguagem e com a sonoridade delas – efeitos simbólicos que não eram comuns nos poemas infantis – e aí ele já começa a ser perseguido politicamente, incomodava a proposta dele de fazer as crianças pensarem para além da normalização da vida e do regime político que já se expandia na época”.

Cinco narrativas inacabadas

Caro Iakov Semenovitch,

1. Um sujeito, ao pegar um embalo, bateu com a cabeça tão forte na ferraria, que o ferreiro pôs de lado o malho que estava segurando, tirou o avental de couro e, alisando os cabelos com a palma da mão, foi para a rua ver o que tinha acontecido. 2. Lá o ferreiro viu o sujeito sentado no chão. O sujeito estava sentado no chão, segurando a cabeça entre as mãos. 3. “O que aconteceu?” – perguntou o ferreiro. “Ai!” – disse o sujeito. 4. O ferreiro chegou mais perto do sujeito. 5. Nós vamos interromper a narrativa sobre o ferreiro e o sujeito desconhecido para iniciar uma nova narrativa sobre quatro amigos de harém. 6. Era uma vez quatro adoradores de harém. Eles acreditavam ser agradável ter umas oito mulheres ao mesmo tempo. Eles se reuniam de noite e ponderavam sobre a vida num harém. Eles bebiam vinho; bebiam até ficarem bêbados; estatelavam-se embaixo da mesa; eles vomitavam. Era repugnante olhar para eles. Eles mordiam os pés uns dos outros. Eles chamavam uns aos outros com palavras de mau gosto. Ficavam se arrastando com a barriga. 7. Nós vamos interromper este conto sobre eles e dar início a um novo conto sobre cerveja. 8. Ao lado do barril de cerveja um filósofo estava sentado e raciocinava: “Este barril está cheio de cerveja. A cerveja está fermentando e ficando mais forte. Eu estou fermentando a píncaros altíssimos em minha razão e ficando mais forte em meu espírito. A cerveja é uma bebida corrente no espaço, já eu sou uma bebida corrente no tempo. 9. Quando a cerveja está presa no barril, ela não pode fluir a lugar nenhum. Para-se o tempo, e eu fico parado. 10. Mas o tempo não para, meu curso segue inalterado. 11. Não, é melhor que a cerveja siga seu curso livremente, pois vai contra as leis da natureza mantê-la num mesmo lugar”. E com essas palavras o filósofo abriu a torneira do barril e a cerveja escorreu pelo chão. 12. Nós já contamos o bastante sobre a cerveja; agora vamos contar algo sobre o tambor. 13. O filósofo bateu no tambor e gritou: “Eu produzi um ruído filosófico! Ninguém precisa deste ruído, ele é até incômodo a todos. Mas se ele incomoda a todos, quer dizer que ele não é deste mundo. E se ele não é deste mundo, então ele é do outro mundo. E se ele é do outro mundo, então eu o produzirei”. 14. O filósofo ficou fazendo ruído por muito tempo. Mas nós vamos parar esta narrativa ruidosa e passaremos à próxima narrativa, silenciosa, sobre as árvores. 15. O filósofo caminhava sob as árvores e estava em silêncio, pois a inspiração o abandonara.

27 de março de 1937


Alguns pontos sobre Kharms, na visão de Zé:

“Na vida movimentada de Dandan, faltava, contudo, um ganha-pão” (MOUNTIAN, Daniela)

  • Daniil, ou Dandan, teve apenas dois poemas publicados além dos poemas para crianças, que eram sua fonte de renda. Na medida que o regime foi ficando mais rigoroso, ele foi publicando menos e menos os textos infantis. Seus textos, como os de outros vanguardistas, eram considerados antissoviéticos.
  • Tinha muitas vivências poéticas no cotidiano com outros artistas que acreditavam que a poesia deveria ser uma força fundamental na vida de qualquer pessoa comum. Eram muito conhecidos na cidade (Kharms nasceu e viveu em São Petersburgo) por irromperem nas cenas diárias causando alguma agitação, com a poesia, o manifesto, a performance.
  • Frequentava muitos grupos que eram chamados de futuristas, mas que se diferenciavam muito e até se opunham ao futurismo italiano (que deu origem ao termo). Viveu transitando entre diferentes grupos durante o pulsante período da vanguarda russa.
  • Ele estava refutando os modos de se conceber poesia, linguagem e relações.
  • Contestava o tempo, o espaço, o recorte do corpo humano. A contestação era muito profunda. Ele não se encaixava na academia nem na proposta de realismo socialista, não era acolhido por nenhum lado, e assim era muito fácil ser condenado à prisão e a trabalhos forçados, quando não à morte.
  • Ele foi preso duas vezes. A segunda vez foi em 1941 e, no ano seguinte, ainda preso, ele morre.
  • Escrevia sem estar sendo publicado. Após sua morte, a veiculação e a publicação de seus textos continuaram sendo proibidas, mas ele era lido clandestinamente.
  • Estava escrevendo aquilo que o levaria à morte.
  • Esta relação dele com a palavra é o que chamo de urgência pela intimidade com a vida. Mas isto não se dá de uma forma romantizada ou puramente emocional… Seus textos são estranhos, às vezes truncados, absurdos.
  • Como artista, reivindicava a busca pela intimidade com a realidade como a base de todas as relações, todas as formas de materializar a vida, seja trabalhando, conhecendo, se movendo, reivindicava a natureza de todos os movimentos que se transformam em normas e conjuntos de papéis impostos sobre a sociedade.
  •  Propõe uma experiência literária que tem relação imediata com o processo da vida, gerando estados transitórios a partir de personagens que podem desaparecer do nada, ou carregam memórias falhas, onde as partes do corpo se espalham, enfim, dispersam-se as construções todas.





Em nossa longa conversa por Skype, durante a pandemia, Zé Carol contou que voltou para Minas, está inventando uma nova forma de existir em si mesmo, fazendo seus próprios móveis, criando bichos e plantas, se voltando mais para a terra, ao lado de Lane Bum, que assina a bela arte da entrevista e responde no Instagram como @lane_bum.

Além da tradução do russo, Zé nos deixa também dois poemas escritos antes do início de sua transição. E ressalta que está aberto para receber pedidos de revisão, criação e tradução.

nem era alguém apagar-se soba palavra
nem era não apagar-se soba palavra
média a voz que atravessa não ao meio de todas as coisas

zé carol, 2016

a lua queimou meus olhos
é tudo claro sim é bonito
tudo cheio de dores

zé carol, 2015 ou 16

“Eu ainda gosto destes dois poemas de antes da transição, porque neles dois tem um desejo muito forte de experimentar o silêncio pela poesia ou a poesia pelo silêncio. Na época, eu sentia isto porque conheci uns poemas da Alejandra Pizarnik e também estava lendo a Nina Rizzi. Eram poemas que alimentavam muito este desejo em mim. Este desejo que ainda sinto hoje, mesmo a partir de outras referências, que não vêm só de leituras.”

“Eu ia fazer uma lista de artistas trans, mas eu quero apenas enfatizar a existência da Bianca Kalutor. Uma artista absoluta que é empurrada pros lugares de mais vulnerabilidade nesta sociedade. Tem que ter muito fomento e visibilidade, ela movimenta muito a vida de pessoas trans, agiliza muito rolê, a presença dela devolve tudo ao movimento. @bibikalutor83 @kalutor50”

Por @ericamagni

Arte @lane_bum

Revisão: zé carol