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Nós, Yanomami, estamos muito preocupados porque os brancos só pensam em estragar a Terra, só sabem destruir a floresta. Eles não têm amizade por ela, não a querem. Da profundeza do seu chão só arrancam coisas para fabricar suas mercadorias, depois as queimam e o mundo se enche de fumaças que viram doença xawara para todos. A floresta também adoece dessas fumaças, suas árvores morrem, bem como suas águas e seus animais. É assim que entendemos as coisas. Por isso, nós Yanomami, estamos tão inquietos. Nós perguntamos: “Por que razão os grandes homens dos brancos não falam sabiamente entre eles e continuam querendo maltratar a Terra?” Eles já têm muitas mercadorias, é suficiente! Apesar disso, querem ainda tirar da terra todas estas coisas brilhantes, pedras e metais, com os quais fabricam suas coisas preciosas. É isso que preferem entre tudo; é por causa disso que destroem e sujam nossa Terra!”

por Davi Kopenawa Yanomami publicado originalmente no livro Povos Indígenas no Brasil 2006-2010 (ISA)

Ilustração do livro Diário de Área: memórias de uma viagem às terras Yanomami
Obra que Vera Ifaseyí chamou de As lágrimas do Xamã

A luta dos Yanomami pelo direito à terra ganhou uma força a mais com o trabalho delicado de Vera Ifaseyí, que acaba de lançar, de maneira independente, o livro Diário de Área: memórias de uma viagem às terras Yanomami, onde ela traz ilustrações do tempo em que conviveu com a etnia em terras sagradas da floresta amazônica. Como se sabe, o território está sendo destruído pelo atual governo que liberou o garimpo, e, por isso mesmo, essa edição da Coluna Translação se faz tão urgente. Também é com muito orgulho e gratidão que nos despedimos do site Revistas de Cultura, fechando um movimento completo de translação robusto (ficamos um ano por aqui), com uma série de entrevistas e podcasts. Obrigada por nos acompanhar, seguimos na órbita desembarcando numa breve e próxima estação ainda inimaginada. Esta edição traz também um afetuoso registro audiovisual inédito e exclusivo com a artista, que é uma verdadeira caixa de sabedoria fluida, repleta de ancestralidade, composta por conhecimentos de diversas culturas e povos, ideias e conceitos vitais, que existem antes mesmo de eu e você chegarmos até aqui.  

Entrevista com Vera Iafaseyí para a Coluna Translação

VERA IFASEYÍ nasceu no Rio de Janeiro em 1958 e mora em Roraima há quase 20 anos.  É artista visual, técnica em enfermagem e formada em design. Foi professora de artes em organizações sociais no Rio de Janeiro e em escolas da rede municipal de Boa Vista, e também atuou na saúde indígena com a população Yanomami, entre 2005 e 2007. Além disso, foi integrante do Fórum de Cultura de Roraima e fundou o Núcleo de Estudos Afrocentrados Ojúomim da Amazônia, onde realizou encontros e atividades de valorização da cultura negra em Boa Vista, entre 2010 e 2016.

A artista multidisciplinar Vera Ifaseyí no quintal de sua casa em Boa Vista Roraima

O encontro da artista com a realidade indígena brasileira foi a partir de uma jornada que ela chama de reencontro consigo mesma. Após o falecimento de sua mãe, no início dos anos 2000, ela resolve partir para novos rumos, sem deixar de considerar a prática do desenho, algo que a acompanha desde a infância.  

“Saí do Rio de Janeiro na intenção de recomeçar a vida em Minas Gerais, na companhia do meu filho mais novo, Raphael, mas segui para o extremo Norte do Brasil, Roraima, para visitar meus dois irmãos e familiares que lá viviam. Fiquei. Criei morada em Boa Vista. Precisava trabalhar. Dei aulas de artes em escolas públicas e mais tarde descobri a possibilidade de atuar no campo da saúde indígena, por intermédio da Fundação Nacional da Saúde e Missão Catrimani. Assim, reativei a minha formação, há muito tempo não exercida, como técnica em enfermagem”, conta Vera. 

Uso do yãkõana, caneta esferográfica preta sobre papel, Roraima, 2021.

Em 2005,  a artista embarcou numa intensa experiência: sair da cidade e viver dentro da floresta, a Floresta Amazônica viva em todos os âmbitos e mergulhou no profundo íntimo dos mistérios que nela habitam. 

“Passei a viver o cotidiano indígena com espaço e tempo outros, onde tudo se conecta. Os Yanomami (re)existem no Norte do Brasil e na Venezuela com seus costumes, seus saberes, suas lutas, com respeito à natureza e aos seus ancestrais. A Floresta Amazônica oferece tudo aos seus habitantes e ao mundo: os igarapés, igapós, os rios, os animais, sua terra… Como não sei fazer nada sem desenhar, entre os intervalos do trabalho, com papel A4 e caneta esferográfica preta, registrei minhas melhores memórias e tracei os diversos aspectos do cotidiano que vivi com o povo Yanomami. Compartilharei aqui, como forma de agradecimento e respeito a esse ‘povo encantado’, essa viagem ilustrada e, também, contada no meu Diário de Área”, ressalta Vera. 

Xamanismo, caneta esferográfica preta sobre papel, Roraima, 2021

 Nas páginas que vão passando, Vera constrói uma belíssima condução através de suas imagens a uma conversa sincera sobre estética, prática de desenho e criação de novas nuances. Nos ensina como elaborar um inesquecível trabalho de observação sobre o dia a dia de uma comunidade Yanomami. Com apenas caneta bic e papel registrou grandes acontecimentos e também a tradição da rotina, com a mesma sensibilidade e intensidade de envolvimento artístico, algo que nossos olhos podem finalmente celebrar nesta publicação. Os traços nos convidam a dançar a mesma música, sentar no mesmo chão, comer junto, e também fazer o exercício de imaginar como é sentir o peso de fazer parte de uma etnia ancestral, ameaçada de extinção pelo sanguinário estado que pretende revirar o solo considerado sagrado em busca de minérios. O livro tem coordenação editorial de sua filha Luana Dias e projeto gráfico e diagramação da artista visual Ana Clara Tito.

Foto do livro Diário de Área: memórias de uma viagem às terras Yanomami

O livro de Vera é um portal físico para se debruçar, adentrar, e se tivermos coragem, fazer  ressoar as injustiças a que são submetidos os povos originários no Brasil. E transformar em arte e ativismo a amarga revolta de conviver e compactuar com uma sociedade hipócrita, que mantém no poder brancos que matam indígenas todos os dias. Para além de toda a infinita dor, o projeto também nos transporta imediatamente ao contato íntimo com a preciosa e urgente existência destes seres, que já viviam muito bem, aqui no continente, antes dos brancos colonizadores, mal intencionados, aportarem suas caravelas cheias de doenças, que os Yanomamis denominam de “epidemia xawara”. 

O livro e outras obras de Vera serão tema de uma incrível exposição no SESC Roraima, chamada Pegadas Atemporais – Uriki Hami Ya Mayo Kohipi, que começou dia 11 junho, e vai até 11 de outubro. Aberta para a visitação do público, a expo trará cerca de 40 obras, entre ilustrações e instalações de madeira talhada, da artista que compõe mais de 15 anos de trabalho com materiais e técnicas múltiplas, como tecelagem, escultura, estamparia, entre outras.

Vera Ifaseyí na montagem da exposição Pegadas Atemporais – Uriki Hami Ya Mayo Kohipi no Sesc Roraima
Exposição Pegadas Atemporais – Uriki Hami Ya Mayo Kohipi aberta ao público com todas as medidas de segurança respeitadas
Sesc Roraima abre as portas para mais de 40 obras de Vera Ifaseyí até o dia 11 de outubro
Raposinha Yanomami parindo, caneta esferográfica preta sobre papel, Hakoma, Roraima, 2009. 

A artista é iniciada no candomblé de Ketu há 30 anos e realiza atendimentos espirituais em sua casa-terreiro, compartilhando seus saberes ancestrais e de cuidado integral. Com seu primeiro livro, Vera Ifaseyí deseja contribuir para a visibilização, o fortalecimento e o reconhecimento do povo Yanomami, por meio da sua arte. O projeto foi apoiado pela Lei Aldir Blanc, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e do Fundo Estadual da Cultura de Roraima. Como forma de agradecimento e fortalecimento tão urgente nesse momento para o povo Yanomami, parte do valor será direcionada a Associação Hutukara Yanomami, em Boa Vista, Roraima.

Intimidade, caneta esferográfica preta sobre papel, Missão Catrimani, Roraima, 2006.  

Ficha técnica do livro

Ilustrações e textos – Vera Ifaseyí

Coordenação Editorial – Luana Dias @luanaasdias

Edição – Luana Dias e Érica Magni @ericamagni

Revisão – Dandara Ribeiro @criptopoeta

Projeto Gráfico e diagramação – Ana Clara Tito @aclaratito

Produção Executiva – Luana Dias e Rafael Pinto @rafaelppinto

Fotos do livro @leviitando

Fotos da exposição: Levi Damasceno

Serviço Exposição Pegadas Atemporais – Uriki Hami Ya Mayo Kohipi

A exposição ficará disponível na Galeria de Arte Franco Melchiorri (Sesc Mecejana)  para visitação até o dia 11 de outubro, das 8h às 12h e das 14h às 18h, de segunda a sexta-feira. 

Sesc Roraima (Mecenaja) –  R. João Barbosa, 143 – Mecejana, Boa Vista – RR, 69304-335

Telefone: (95) 3212-2800

Por Érica Magni

Outono, 2011